Fotografia da minha autoria

«(...] um dos mais importantes romances contemporâneos»

Avisos de Conteúdo: Luto, morte de um familiar, abandono

O curso da nossa jornada, enquanto seres humanos, apresenta etapas de desenvolvimento semelhantes. Contudo, são as entrelinhas que nos diferenciam, permitindo que as experiências sejam tão singulares. Portanto, quando a idade avança, ficamos com um retrato amplo dessa caminhada de emoções múltiplas. E se há alguém capaz de espelhar o impacto de cada transição, como se o escrevesse na primeira pessoa, é Valter Hugo Mãe - o que se tornou a verificar nesta que é uma das histórias mais inesquecíveis com que tive o privilégio de me cruzar.

«um dia seremos cidadãos de um mesmo mundo. iguais, todos iguais»

A Máquina de Fazer Espanhóis, escrita em minúsculas, numa clara utopia de igualdade, parte da vida de um barbeiro reformado para nos impulsionar a refletir sobre conceitos que nos transformam, durante o nosso crescimento: família, amizade e compromisso. Além disso, atribui voz à velhice, à solidão e ao luto. Através de um discurso poético, é impensável não ponderarmos o que nos reservará o futuro e quais as implicações de certas perdas: sejam elas referentes a um cenário de autonomia, sejam elas referentes à morte de alguém que é tudo para nós. Porque cada uma delas dilacera à sua medida, condicionando uma parte do nosso presente - mesmo que o final aparente estar próximo.

«(...) e o seu coração não sabia como parar de sofrer»

Feita de vulnerabilidade, esta narrativa é, também, um reflexo do quotidiano nos lares, da inerente sensação de abandono e dos fantasmas do passado que, neste caso, se associam a decisões pessoais, ao mesmo tempo que realçam o período da ditadura, tão pautado pelo medo. E é no epicentro desta portugalidade que somos surpreendidos pela candura que existe no caos. Sem nos privar da realidade, é a fragilidade do nosso protagonista que nos comove e que nos enlaça à sua dor, à sua angústia e à saudade que o ampara. Porque o Senhor Silva poderia ser qualquer um de nós, atendendo a que somos feitos de incoerências idênticas [apenas direcionadas por outros perímetros] e, sobretudo, por sermos falíveis. Assim, deambulando por todas as suas camadas emocionais, compreendemos muito melhor o que opõe a existência e a sobrevivência.

«eu sou um romântico e não se aprende a viver sem amor da noite para o dia»

Valter Hugo Mãe, com a sua escrita fascinante, desenvolveu um enredo onde cabemos todos, onde é percetível que o sofrimento nos tolda o discernimento e onde, naturalmente, desconstruímos a crítica social. E sendo palco de contrastes, ri na mesma proporção em que senti as lágrimas a cair pelo meu rosto. Porque há uma certa beleza nesta dor tão concreta. Por instantes, senti-me parte das conversas, vivenciei os mistérios e desfilei por um conjunto de memórias antagónicas, com tantas histórias dentro. Pudesse eu ter palavras suficientes para descrever o quanto este romance é precioso e a transbordar de coragem.

«precisamos que cada um exerça aquilo para que a natureza o dotou»

A Máquina de Fazer Espanhóis é mais do que um livro sobre solidão, fraquezas - físicas e da alma - e ficar velho. É, acima de qualquer outro tema, sobre o profundo amor que habita no lado esquerdo do peito e que, apesar de já não ser correspondido, continua a despertar o melhor que há em nós. Questionando a morte, o regime Salazarista e a sabedoria adquirida, repensamos a forma como nos posicionamos no mundo. E percebemos que, embora a terceira idade pareça ser o fim da linha, retirando-nos tempo, temos sempre a oportunidade de inventar um espaço seguro, enquanto a consciência não for só mais uma miragem.

«(...) precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia»

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