Fotografia da minha autoriaA voz de Caetano Veloso, em Cajuína, questiona-nos sobre «a que será que se destina» esta ideia de existirmos. Talvez não haja uma resposta fechada, única, contudo, Ana Bárbara Pedrosa fez deste verso um mote para explorar a criação e, acima de tudo, para nos trazer uma versão diferente daquilo que encontramos escrito na Bíblia.uma tentativa de repor a verdadePalavra do Senhor remete-nos para uma aclamação litúrgica, permitindo-nos ouvir a voz do Criador. Neste caso, Deus narrar-nos-á os acontecimentos desde o princípio do mundo, sempre de uma perspetiva muito humana, para que reflitamos acerca do que foi sendo distorcido ao longo do tempo, porque o Homem leu, mas entendeu tudo mal.A premissa intrigou-me de imediato, se calhar, por me sentir cada vez mais afastada da religião e das versões que se sobrepõem e contradizem. Continuo a ter as minhas crenças, mas sei que coloco mais coisas em causa, que questiono mais, que me vou tornando mais cética em relação a alguns propósitos. Não fui batizada por escolha pessoal, mas andei na catequese até fazer o crisma por vontade própria, fui acólita e andei no coro da Igreja pelos mesmos motivos. Olhando para esse trajeto, creio que precisei de passar por cada uma dessas etapas para chegar a este ponto: ao ponto de ser capaz de não aceitar tudo o que é invocado, somente por estar num livro sagrado.Ana Bárbara Pedrosa não menospreza, ainda assim, a religião católica, traz-nos é um olhar crítico sobre a mesma e sinto que esse é um dos pontos fortes da narrativa, não só porque nos desarma com a sua abordagem em relação à ação d’ O Altíssimo, mas também porque nos obriga a analisar o nosso comportamento (enquanto crentes ou não), uma vez que tendemos a inverter e distorcer as mensagens consoante as nossas necessidades. E, por causa disso, fiquei a pensar no quanto é fácil escolhermos um bode expiatório, desculpabilizando-nos com o facto de agirmos sob a sua influência.«Afinal, educar é isso: não cortar as asas, mas mostrar até onde vai o céu»Imaginar Deus, em nome próprio, como um comum mortal, a vir esclarecer boatos, mal-entendidos e motivações dúbias, admito, teve a sua graça, muito por causa da escrita da autora. De um modo ousado, colocou-o ao nosso nível, com as mesmas inquietações, com rasgos de desapontamento, com obsessões, com emoções à flor da pele, com paixões, com sonhos, com um traço de emotividade que mais parece uma montanha russa a oscilar. Achei isso original e motivou-me para avançar na leitura, mas, por outro lado, sinto que este livro não ficará comigo, porque pareceu-me que a concretização acabou por esmorecer, tornando a narrativa um pouco repetitiva.Palavra do Senhor explora limites, a desilusão agregada à falta de compreensão e erros. Dividido em duas partes, queria que a proposta tivesse mais espaço para amadurecer.notas literáriasLido entre: 3 e 5 de fevereiroDesafio: 6 autores para 2025Formato de leitura: FísicoGénero: RomancePontos fortes: A crítica à Igreja Católica e a humanização de DeusBanda sonora: Eva, Ivete Sangalo | Cajuína, Caetano Veloso | Na Escola, Os Quatro e MeiaNota: Esta publicação contém links de afiliada da Wook e da Bertrand