“Estou à procura de um livro para ler. É um livro todo especial. Eu o imagino como a um rosto sem traços. Não lhe sei o nome nem o autor. Quem sabe, às vezes penso que estou à procura de um livro que eu mesma escreveria. Não sei. Mas faço tantas fantasias a respeito desse livro desconhecido e já tão profundamente amado. Uma das fantasias é assim. Eu o estaria lendo e de súbito, uma frase lida, com lágrimas nos olhos diria em êxtase de dor e de enfim libertação: Mas é que eu não sabia que se pode tudo, meu Deus!”

(Clarice Lispector, “A paixão segundo G.H.”)

Todo leitor procura este livro: o perfeito, aquele que contém a história desejada. Ele não tem nome e talvez não tenha autor, mas possui alma.  Fibras. Músculos. Lágrimas. É um livro de sangue, e encontrá-lo é como achar um irmão perdido.

Na biblioteca de Babel, somos andarilhos no meio do deserto das histórias. Só temos a esperança a nos guiar, uma vela fugidia, que às vezes ameaça apagar, e guia nossos passos de forma bruxuleante, oscilando entre as lombadas dos livros, debochando da busca como se soubesse da sua inutilidade.

Mesmo contra as possibilidades (pois precisaríamos de muitas vidas procurando o impossível), sonhamos com este livro. Sonhamos que a imitação de vida presente nas suas páginas grude na nossa existência e nos faça entender tudo.

Ando pelas livrarias e bibliotecas procurando este livro. Enquanto não acho o certo, me divirto com os errados. E, se nos encontrarmos entre as prateleiras, perdoe o silêncio, os olhos carcomidos pelo cansaço, os gestos lentos; estou procurando algo que não consigo encontrar.

Pode estar aqui. Ou não.
Pode estar aqui. Ou não.

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Publicado por Gustavo

Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo