(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de julho de 1998)
Uma das maiores curiosidades de A MORTE NO BOSQUE (La mort des bois, França, 1996, em tradução de Rosa Freire d´Aguiar para a Companhia das Letras), de Brigitte Aubert, está em descobrir como a autora francesa conseguiu contornar seu bizarro ponto de partida: a narradora e presumível solucionadora do mistério, Elise Andrioli, é tetraplégica, cega e muda devido a uma explosão. E, de fato, as soluções que o romance apresenta são tão ardilosas e bem urdidas que o leitor consegue passar por cima dos disparates e dos pontos estapafúrdios da trama.
Elise mora numa pequena comunidade, Boissy-les-Colombes, e conhece por acaso o casal Fansten, Paul e Hélène, e sua filhinha, Virginie; e, através deles, uma série de casais de classe média alta que vivem em condomínios e se visitam mutuamente.
Tudo se complica para Elise quando Virginie resolve tomá-la como confidente e revela conhecer o assassino que mata e mutila meninos na comundiade. Embora não diga quem é (apelidou-o de “A morte no bosque”), ela atormenta a protagonista com suas revelações macabras.
Virginie, portanto, é a chave do mistério e o meio de se chegar ao serial killer. É o que pensa o delegado Yssart, o qual começa a visitar Elise para tentar descobrir a ligação entre ela e o assassino, que passou a ameaçá-la e agredi-la (pica-a com uma agulha, tenta afogá-la no lago, agride-a com uma faca). O grande enigma: por que “A morte no bosque” persegue Elise e parece odiá-la tanto se ela não tem qualquer ligação com os crimes e mesmo que Virginie conte a ela alguma coisa não pode comunicar-se com ninguém? Como ela mesma diz, “todas as manobras do criminoso repousam no postulado de base de que sou incapaz de me comunicar cm os outros”. Tudo fica ainda mais embrulhado quando se descobre que o tal delegado Yssart é um impostor.
Enquanto isso, Elise embrenha-se no universo dos casais que conheceu via Paul e Hélène, descobrindo (como seria inevitável com relação ao “discreto charme da burguesia”) que por baixo da fachada calma e próspera, oculta-se algo tão horrível quanto os crimes em que se envolveu involuntariamente: tráfico de drogas, adultérios, maridos e esposas que se odeiam, espancamentos…
Nesse ponto, A MORTE NO BOSQUE me lembrou aquele belo filme de Claude Chabrol, La cérémonie (no Brasil, hilariamente intitulado Mulheres diabólicas), onde os fatos sórdidos e até mesmo escabrosos surgiam aos poucos, após a apresentação de um quadro aprazível, civilizado e quase que se poderia dizer entediante.
Pena que a parte final do livro de Brigitte Aubert seja um tanto exagerada demais e que ela tenha colocado o postiço Yssart (não se revela aqui sua identidade verdadeira, para não estragar o clima da leitura) como elemento que amarra todos os fios da intriga. Nada mais absurdo que sua participação na história, seu acesso às pessoas e aos detalhes do caso, para não falar das suas elucubrações e tiradas psicológicas e míticas sobre o comportamento do assassino.
Outro ponto discutível, de mau gosto mesmo, é o interesse sexual e passional de vários personagens masculinos por Elise. Tudo bem, até é aceitável, no momento em que ela está mostrando o avesso do tapete persa da respeitabilidade burguesa de um Paul Fansten, que ele a boline após uma noite de bebedeira. Mas declarações de amor apaixonado já se tornam uma pitada de gosto duvidosíssimo.
Nada disso impede A MORTE NO BOSQUE de ser uma narrativa de mistério bem engendrada. Além disso, a própria narradora já nos envolve com sua argúcia, suas observações causticantes e seu tom, que muitas vezes faz o livro ganhar um sentido de comédia macabra, que o torna especialmente interessante. Por exemplo, vai tornando-se muito engraçada a sucessão de telefonemas e toques de campainha na casa da inválida Elise, de repente inundada por fofocas, interrogatórios e visitas sinistras.
Para quem, n primeiro parágrafo, definia-se como um “legume vivo”, nada mal. Como diz o falso delegado Yssart, a certa altura: “Veja só. Positivamente, a senhorita está sempre bem informada. Nunca perco meu tempo em visitá-la. A senhora é a miss Marple dos habitantes deste bosque”.





