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Fotografia da minha autoria |
«Hogwarts sempre ajudará aqueles que merecem»
As palavras entraram em minha casa cedo, através de um manto de histórias, que fugia pelos meus dedos irrequietos. Muitos foram os cadernos preenchidos com contos e poesia. E por ser tão focada nesta produção em letras, fui-me distanciando dos mundos construídos no interior dos livros. Não por descrédito, mas por acreditar, erradamente, que a leitura e a escrita são dissociáveis. Portanto, não tinha maturidade suficiente para compreender que se influenciam e que poderia acolhê-las quase em simultâneo. Porque coabitam em harmonia.
Fui cimentando a minha estrada. E não cresci a ambicionar receber uma carta de Hogwarts. Embora não me tenha faltado pretexto, uma vez que me ofereceram o primeiro livro da saga Harry Potter. E eu fiquei tão entusiasmada, que procurei adquirir os dois volumes seguintes, com a clara intenção de me perder neste universo mágico. Tal não aconteceu. E quanto mais adiava este encontro, menos sentido fazia aventurar-me nos seus enredos. Porque palpitava o pensamento de que já era tarde para me identificar com a sua história. Afinal, até quando é que feitiços e feiticeiros são estimulantes? Será que há mesmo um tempo certo para a liberdade da fantasia? Desconstruir estes dilemas literários foi uma batalha subtil, que nem sempre tive noção de abraçar. Mas que foi crucial para alterar a minha postura e compreender que sou eu que marco o meu ritmo. Inclusive, quando se trata de priorizar obras que não aparecem referenciadas para adultos.
OS TEMPOS CERTOS PARA CADA LEITURA
A minha voz aponta sempre num sentido, atendendo a que defendo que cada livro tem um momento mais indicado. Porém, isso tem pouco que ver com a idade. Relaciona-se muito mais com a nossa predisposição emocional e temporal - e com as nossas preferências. Porque nem sempre atravessamos a fase mais oportuna para ler determinada narrativa, o que condicionará a ligação que teremos com a mesma. Por essa razão, temos que nos saber escutar. Temos que saber progredir ou parar. Porque só assim poderemos desfrutar da melhor experiência literária.
Em simultâneo, considero tão válido ler literatura infanto-juvenil durante essas etapas da nossa vida, como lê-las em idades mais avançadas. Porque obteremos retornos distintos. E isso não significa que seja menos especial. Assim, desde que exista essa vontade, vamos sempre a tempo desse investimento. Ademais, esta dinâmica não é transversal à sociedade. É, pelo contrário, muito pessoal. E não permitam que vos façam acreditar que já não têm idade para iniciar ou continuar a descobrir certos exemplares. Porque isso, sim, é errado.
O CONTACTO COM HARRY POTTER
Os três primeiros volumes acompanharam, então, o meu crescimento, mas da pior maneira possível: parados na estante, a decorá-la. Só não acrescento a acumular camadas de pó, porque tinha o cuidado de os manter bem preservados. Mas nunca foram uma escolha de leitura, primeiro, por ter demorado a despertar para esta arte e, segundo, por sentir, como descrevi anteriormente, que tinha perdido a carruagem. No entanto, depois de os colocar à venda, possibilitando o voo para outro lar, compreendi que havia um desejo sério de colmatar esse vazio. De, finalmente, quebrar todas as dúvidas e dar espaço para que a minha mente curiosa e inquieta explorasse um novo registo. Um ambiente que fui ignorando, mas que me pareceu tão deslumbrante... aos 27 anos.
COMO É LER HARRY POTTER AOS 27?
Naturalmente, tive receio de não me identificar com a escrita, com o desenvolvimento da ação, com o contexto e com a própria mensagem. Contudo, assim que comecei esta jornada, os receios dissiparam-se e entendi que o difícil seria despedir-me dela - e de março a dezembro, do ano transato, abracei-me aos livros com veemência. Porque faz-nos sonhar. Atribui-nos um propósito. Mostra-nos que, por maiores que sejam os nossos tormentos, nunca estaremos sozinhos. A linguagem simples vai-se transformando, complexificando-se no retrato da pessoa que somos e seremos. Mas sem perder o seu traço puro de encanto. Quando refleti no meu compromisso, não precisei de muitos motivos para verificar que a história se tinha colado à minha pele. É certo que aborda muitos sonhos e esperanças infantis e juvenis. Mas mais certa ainda é a capacidade de estabelecer pontes com o mundo dos adultos.
O imaginário visual é mesmo uma das maiores riquezas de Harry Potter, porque as descrições minuciosas transportam-nos para aquele ambiente dentro e fora de Hogwarts. Além disso, exalta a amizade, os valores benignos, a lealdade e a imprevisibilidade do destino. No nosso planeta não há feitiços, dragões, horcruxes, nem dementors [enquanto figura]. Mas há guerras, racismo, doenças mentais e perdas. As denominações podem ser diferentes, mas, sendo bem analisadas, há laços que se unem. E esta transversalidade é surpreendente. Estimulante. E mais uma prova da importância de não diminuirmos o poder da literatura infanto-juvenil. Porque as suas entrelinhas escondem vínculos, que só poderemos compreender se nos livrarmos de todos estes preconceitos.
Portanto, aos 27 estava a sentir-me conquistada por um enredo que marcou gerações, anos antes. E questionei-me se, fazê-lo nesta fase, teria mais vantagens ou dissabores. Como em tudo, há prós e contras.
Os Prós:
👓 Ter a sensibilidade de perceber a influência de determinados avisos e metáforas. Provavelmente, se tivesse lido na infância/adolescência, perderia esta aproximação à saúde mental, por exemplo. Mas também perderia a riqueza temática da obra, porque não há só misticismo. Há política, psicologia, história, física, ética, desporto, comunicação. E muitos saltos de fé. Porque esta saga está cheia de camadas.
👓 Compreender que nunca é tarde para mudar.
👓 Olhar para personagens que, talvez, não fossem as favoritas. Em miúda, provavelmente, perder-me-ia de encantos pelo trio de amigos. Em adulta, mesmo tendo sido conquistada por Harry, Hermione e Ron, as minhas preferências recaem noutros nomes: Neville [pelo sentido de lealdade e pela evolução], Sirius [porque há pessoas que nos marcam para sempre] e Snape [pela complexidade] - mas, também, Luna e Lupin.
👓 A beleza da primeira vez. E do recuar à minha infância.
Os Contras:
👓 Não conseguir crescer no mesmo compasso das personagens. Acredito que, neste aspeto, a aventura tivesse sido muito mais incrível.
👓 A ausência de inocência na interpretação de certas passagens, porque há uma bagagem da qual não me posso dissociar. E, mesmo que não seja esse o intuito, acabo sempre a analisar comportamentos.
👓 Não sentir, por completo, o deslumbramento puro da magia. Porque, embora a autora tenha conseguido transportar-nos para aquele ambiente, mesmo em adultos [e eu ter vibrado imenso], nada tem tanto encanto como quando o descobrimos na fase da vida em que estamos mais predispostos para fazer da imaginação o nosso meio de transporte.
CONCLUINDO
Qualquer altura é maravilhosa para lermos Harry Potter. Sei que ainda permanece um certo estigma, receio de sermos rotulados e das nossas escolhas serem desvalorizadas, mas triste é aquele que considera as suas leituras superiores. Portanto, se ouvirem o rapaz da cicatriz a chamar por vocês, não lhe virem as costas. Tenham 11 ou 71 anos.
É imprescindível ler esta história? Essa resposta dependerá sempre da vossa vontade e curiosidade. Mas, hoje, sei que a minha cultura literária e a minha vida não seriam tão espetaculares, se não lhe tivesse aberto a porta da minha casa. E do meu coração hospedeiro.
