Fotografia da minha autoria

«Homenagem a um comboio que já não existe»

O mundo é imenso. Infinito. E, mesmo assim, parece tão alcançável, com se o guardássemos na palma da mão, quando deambulamos pelas histórias dos nossos livros. Nesta possibilidade de viajar sem sair do lugar, conhecemos os locais com outra alma, com outro olhar, por nos permitirem seguir as pegadas dos seus viajantes. De facto, há ilusões que nos alimentam e que nos sossegam, de tão belas que se apresentam.

É quase poética esta sensação de fazer a mochila e ir. Transmite uma noção de liberdade incomparável. E apura o nosso perfil aventureiro, sempre pronto a descobrir novos destinos. Embora ainda não tenha levantado voo, abracei esta missão de seguir por um trilho singular, longo em recordações, que marcou tantos homens e mulheres que por lá passaram. Patagónia Express foi a minha estreia em Luis Sepúlveda, mas senti uma identificação imediata, sendo já uma referência literária. Porque há qualquer coisa de fantástico na sua exposição dos acontecimentos, transportando-nos para este labirinto que é a vida.

A obra supracitada desenvolve-se num relato maravilhoso, com algum humor. No entanto, há episódios que têm uma intensidade inquietante, uma vez que evidenciam contornos da ditadura militar, do exílio, «da doença de um país», da soberania do medo e da própria incerteza em relação ao futuro e ao paradeiro de algumas pessoas. O autor chileno faz-nos, também, sentir a angústia de não sermos capazes de regressar, ao mesmo tempo que nos envolve na defesa dos seus ideais, valores e quebras de preconceito. E, enquanto procura por uma vida melhor, longe do medo, embarca numa viagem que tem tanto de literal, como de introspetiva - recorrendo a memórias familiares importantes. E é através deste vínculo afetivo que comprovamos a beleza das interações.

Patagónia Express encerra um ciclo. Para além dos apontamentos sobre o período de exílio, onde é evidente a incompatibilidade entre o regime e Luis Sepúlveda, encontramos um conjunto de crónicas que nos encaminham pela Patagónia e pela Terra do Fogo, mas contemplando desvios que nos levam até ao Equador, ao Brasil, à Bolívia e a Andaluzia, que é a «terra dos seus antepassados». Tendo acesso a todas as peripécias que se foram sucedendo, é percetível a sua homenagem tão particular - e, em parte, peculiar. Em simultâneo, recuamos à sua infância e à figura incontornável do seu avô, que contextualiza a sua personalidade tão apaixonada e autêntica. Só depois chegamos ao roteiro propriamente dito, onde somos confrontados pela fortuna, pela desgraça, pela cultura, pela sobrevivência e pelas suas raízes. 

Este livro tem uma marca indelével de autobiografia. Tem traços de combate político. Mas também não deixa de ser um manifesto de amor aos amigos, à família, à vida, à liberdade e às maravilhosas paisagens sul americanas. Aconchegando-nos neste comboio inexistente, vamos conhecer as pessoas. As suas histórias. E vamos à essência de quem nos escreve, nesta travessia que se adivinha longa, bastante visual e absolutamente comovente, proporcionando-nos um final inesquecível.

Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«- Este livro será um convite para uma grande viagem. Promete que a farás.

- Prometo. Mas para onde vou viajar, avô?

- Possivelmente a lado nenhum, mas garanto-te que vale a pena» [p:16];

«Em cada cidade em que me detive visitei antigos conhecidos ou fiz tentativas de novas amizades. Salvo poucas excepções, todos me deixaram o espírito amargurado por um sabor uniforme: as pessoas vivam em e para o medo» [p:38];

«- Voa, chilenito, voa antes que te agarrem» [p:46];

«- E este céu? E todas estas estrelas, Baldo? Serão mais uma mentira da Patagónia?

- E que interessa? Nesta terra mentimos para ser felizes. Mas nenhum de nós confunde a mentira com o engano» [p:98];

«De repente abriu os olhos. Vi-me refletido nas suas pupilas cinzentas, de brilho inteligente. Ordenava a minha imagem entre as suas lembranças» [p:156]

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