(...)«Baldensperger, professor na Sorbona e crítico superior, escreve na explanação deste mesmo problema: "À arte, nada mais que à arte, é que compete regular os seus encargos e deveres. A presa que o produto literário poderá lograr da sensibilidade encontra firme correctivo e a necessária disciplina nas exigências estéticas do autor que se preza. É raro que uma obra acentuadamente deletéria deixe de ser insincera ou pretensiosa, concebida adrede para o escândalo na sua intenção mercantil. Deparar-se-á mais falta de gosto que imoralidade, mais pechisbeque literário e retórico que ouro franco e de lei, mais imperícia que espontaneidade na maior parte das obras que provocam nos leitores discordâncias que automaticamente não vão sendo reabsorvidas no conceito puro de beleza que se exala delas. A tragédia de Sófocles, o drama shakespeariano, em despeito dos horrores e crimes de que estão eivados, ninguém se lembrou acoimá-los de influxo imoral. E por isto, porque não há dúvida que a lógica total de que estão impregnados destrói toda e qualquer dissonância de pormenor. Já Dumas Filho dizia: "Não há teatro imoral; há apenas teatro de fancaria". O mesmo escreveu Camilo mutatis mutandis: "livros sujos, conheço apenas os romances mal feitos."
E Goethe, ainda a propósito de Werther, lamentava que por inexperiência, falta de destreza ou entusiasmo precipitado, ao representar a pusilanimidade, lhe tivesse por vezes conferido um prestígio que é apanágio da força.»

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