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Sociedade portuguesa dos anos 80, Condição feminina, Amor e relacionamentos proibidos, Papel social da mulher, Crítica social
A história do livro ‘O Processo Violeta’ passa-se essencialmente nos anos 80, embora haja recuos ao passado e, no final, um vislumbre do futuro.Inês Pedrosa retrata, a meu ver, muito bem a sociedade portuguesa da época. “Treze anos depois da Revolução dos Cravos, Portugal permanecia um país familiar e ecológico, onde veias, artérias e árvores genealógicas substituíam os currículos”.Esta frase resume muito bem a sociedade portuguesa daquela época e, infelizmente, dos dias atuais – embora um pouco menos.O Portugal dos anos 80 era um país ainda cheio de vícios do Antigo Regime, mas repleto de esperança na Europa e na entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia (atual União Europeia). Todos estavam com os olhos postos no futuro ao mesmo tempo que se tentavam afastar teoricamente do passado, pese embora os hábitos e costumes cá continuassem.As personagensO delicioso deste livro é que as personagens principais são mulheres: todas diferentes, cada uma com os seus problemas e dificuldades, mas, também, todas elas com algo em comum: a forma como a sociedade as trata.Paulina, cabo-verdiana, é a mãe do Ildo. Envolveu-se com um jovem toureiro de boas famílias de quem engravidou. O pai aperfilhou a criança, mas nunca a quis conhecer, dando uma pequena mesada à mãe para ajudar nas despesas.Violeta, que dá o nome ao livro, é uma professora que, à vista desarmada, é uma mulher bem-sucedida com um casamento feliz. Violeta apaixona-se pelo seu aluno Ildo, de 14 anos, de quem engravida. Imaginem o escândalo na sociedade portuguesa do fim dos anos 80.Ana Lúcia, colega de Violeta, é violada e recusa-se a contar o que aconteceu à polícia com medo de represálias por parte do violador, mas, sobretudo, porque ela sabe que a sociedade lhe iria apontar o dedo, garantindo ter sido ela a provocar o abusador que era… seu aluno. Ana Lúcia fecha-se em casa, mas pior, fecha-se em si mesma, temendo dormir porque o pesadelo era sempre o mesmo: ele, em cima dela, com uma faca apontada aos olhos: “mato-te”.Temos ainda a Clarisse que, no meu entender, é o elo entre estas três mulheres. Não por as conhecer a todas, embora a determinado momento se cruze com elas pois é jornalista e tem de escrever sobre o romance entre Violeta e o aluno (Ildo), mas porque é a única que consegue olhar para esta história e ver tudo com outros olhos.E que olhos são esses? Os olhos do amor. Onde todos veem abuso por parte de Violeta, ela vê amor; onde todos veem um jovem Ildo indefeso e ingénuo, ela vê um miúdo consciente do que quer; onde todos veem uma história para explorar e vender jornais, ela vê uma história privada que é mais do que todos querem fazer crer.A própria Clarisse vive escrava do que a sociedade espera da mulher nos anos 80: está grávida, o que a prende a um segundo casamento que não a satisfaz, sentindo que cada vez mais é uma grávida e não uma mulher.Todas estas personagens personificam, de alguma forma, os medos e as obrigações das mulheres no geral.Não vou falar das personagens masculinas - Ildo e Nuno Pinto Delgado - não por ser feminista, mas por crer que a mensagem do livro está muito acima daquilo que eles representam, embora sejam (muito) importantes para toda a trama.ConclusãoÉ uma história cativante à medida que as páginas avançam. O início parece um pouco desinteressante, pois parece que o livro vai apenas contar a história de um romance proibido. Mas à medida que vamos lendo, percebemos que ‘O Processo Violeta’ é muito mais do que isso, sendo, sobretudo, uma história de amor: amor de uma mãe para com um filho, amor entre uma jovem negra e um jovem branco e rico, amor entre uma mulher e um miúdo, amor entre um miúdo e uma mulher.Tenho só apontar como menos bom um ou outro capítulo em que a autora fugiu à narrativa para contar histórias de amor carnais e maternais de outros tempos, o que me fez saltar algumas páginas.📖✅ o retrato da sociedade portuguesa dos anos 80, o explorar dos sentimentos das mulheres perante aquela sociedade e a importância dada ao amor genuíno❌ capítulos sobre históricas histórias de amor que travavam a narrativa e não acrescentavam nada⭐ 3,5
Texto originalmente publicado em Book Stories 2.0