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Mai24

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto


... «O absurdo das ideias estratificadas consistia em que Luís de Camões para ser grande poeta tinha que assentar nas coordenadas que traçaram os primeiros biógrafos e actualmente os concertistas de escola, tocadores de marimba patriótica. Se não era fidalgo, como lhe foi possível burilar toda a filigrana das suas redondilhas palacianas? Se não estudou em Coimbra, na nobre Universidade retransladada, como podia dar prova de tanto saber?

Da humildade de nascimento de Luís de Camões tornam-se porta-voz todos os actos notórios da sua vida. Mas já, àquela altura da História, origem modesta não implicava necessariamente incultura. Onde receberam a formação Gil Vicente, Mendes Pinto, Damião de Góis, Diogo do Couto, Pedro Nunes, Garcia de Orta, para não ir mais longe, figuras coetâneas no zodíaco das letras nacionais e saídos do matagal plebeu? Decerto que Luís de Camões não estudou o muito que soube e traduziu para Os Lusíadas com os profissionais do Mal-Cozinhado. É admissível que, ao tempo, um espírito ávido de saber e aberto viesse a completar a sua ciência de humanidades autodidacticamente como o fizeram, nos nossos dias, ao que parece, Alexandre Herculano, Oliveira Martins e Lúcio de Azevedo, por exemplo.

Os claustros, principalmente São Domingos e Santo Antão, tinham organizado o seu curso de humanidades com disciplinado e proficiente magistério. Tão bem, pelo menos, como Santa Cruz de Coimbra, em que nos primeiros anos se veio enxertar a Universidade. E dizemos pelo menos, pois enquanto formados no seu ensino se conhecem mais de um nome ilustre que se notabilizou nas ciências e nas divinas e humanas letras, dos colégios crúzios, S. Miguel e Todos-os-Santos, nada se sabe. Pode concluir-se, portanto, com segurança, não ser ponto de fé que, para poder exibir uma boa cultura, tivesse Luís de Camões de frequentar a Universidade de Coimbra, no geral seminário de nobres e pupilos dos jesuítas, onde só não eram raros os filhos dos burgueses e ricos-homens das Beiras e filhos de moços da Casa Real que se destinassem à vida eclesiástica. Os morgados, ciosos da sua ignorância, e os plebeus, inibidos por sua própria condição, é que não iam para lá. A cultura começou ao desabrochar, contra a índole, por não ser democrática.»...

(continua)


publicado às 20:06