Bruno Oggione*
caiu à beira do caminho
aquele que fez o mais difícil,
aquele que foi mais longe.
voltou da multidão,
azul fantasma,
como se tivesse ido sozinho.
dando carne aos sonhos,
abre as vidas,
acende as imagens que não vê.
alma errante de guerreiro
infligindo feridas mortais.
tudo destrói tudo.
tudo afoga tudo.
o mundo nos olhos infiltrado
pelo poder das ondas que
quebram uma a uma.
com areia e espuma,
o mar canta em um lugar
de silêncio e solidão
entremeado de noite e frio.
espera-se a espera inútil.
o vazio é preciso.
o punho do mar burila
as guerras de vento.
copo estreito transbordando
tragédias.
véu fixado na barba das crianças afogadas,
nos olhos da mulher. cavalgando o vento,
mas cavalgando o vento pela manhã
dos desertos rochosos e das savanas.
bilhões de palavras e o descobridor disso
no enantiômero. da febre nascente jorra daí o mar
– assim como os bons vinhos.
o clima em outros climas no centro do núcleo
e o trágico silêncio do poema no rosto de todas as criaturas.
para onde vai essa música?
não houve eco.
campos com íris e minas.
de mãos dadas a boca da flauta se dissolve
no balanço do dia e da noite.
presença rápida e transparente.
as dúvidas não serão respondidas.
refúgio silencioso, lugar de dor indivisível.
precário. temporário.
fica-se fixo nas palavras. imóvel.
há um inferno onde ninguém encontra a saída.
espingarda e uivo e retorno.
lobo adormecido atrás de você.
isso é tudo?
não existem fórmulas.
é hora.
a chuva a levar ou lavar cadáveres.
nesse sol daqui, o cacto se retorce em mil dobras.
caminho estreito de areia branca
entre rochas escuras e pinheiros.
florescendo em espuma, a raiva cospe
as pétalas de sua linguagem rara.
o mar sem fundo ressoa
o horror que cresce profundo em sua voz.
neste oceano de símbolos à espreita,
sinto a grandeza da sombra.
no poço do baú eterno, nos trajes que visto,
ainda imerso, acordo,
mexo a grande existência profunda,
a selva sagrada e densa, sua inércia.
sobre o grande abismo,
os suspiros de descanso,
as respirações e as chamas,
minhas mãos, tuas máscaras,
a sombra do velho rosto
e a essência das palavras.
*Bruno Oggione é mestre em Literatura Portuguesa (UERJ). É autor de três livros e tem trabalhos publicados em antologias e revistas literárias.