(resenha-homenagem publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de outubro de 1999)
Neste ano morreram muitos escritores (Iris Murdoch, Mario Puzo, Dias Gomes, Marcos Rey, Morris West, Heinz G. Konsalik, Marion Zimmer Bradley). Se dedicasse espaço a cada um deles, bom ou ruim, importante, discutível ou insignificante, esta minha coluna transformar-se-ia num instrumento necrológico, embora a grande Iris Murdoch (que escreveu romances do quilate de A moça italiana e O mar, o mar) merecesse muito mais do que aparecer numa mera lista.
Mas pelo menos do maior poeta brasileiro do século é preciso falar. Aliás,é uma curiosa coincidência que os dois supremos nomes da nossa poesia tenham nascido em Pernambuco: Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto (1920-1999).
É evidente que, ao falar da obra de João Cabral neste artigo não será possível abordar todos os seus aspectos. É uma obra multifacetada, prismática. E certamente há prismas que nunca me interessaram ou agradaram muito, por exemplo, os inúmeros poemas sobre pintores, os poemas sobre Sevilha, a Espanha em geral.
Há o caso, ainda, do comovente e bonito, mas irritantemente superestimado (com relação ao resto da obra cabralina), Morte e Vida Severina, o qual ainda por cima tem o agravante de ser citado até por governantes que transformam numa vida cada vez mais Severina a existência da população brasileira. Temo que, no futuro, João Cabral será sempre o autor desse auto-de-natal.
Torna-se necessário repetir algo já dito várias vezes em textos anteriores desta coluna: não se pode gostar de tudo, não se pode ter interesse por tudo. A solução é apresentar claramente as fichas para o leitor.
Um dos prismas fascinantes da produção poética de João Cabral, por outro lado, é o seu poder de extrair poesia das coisas, de tentar penetrar, através da palavra, na sua realidade irredutível. É o caso do magnífico O ovo de galinha (de Serial), como se pode ver em alguns trechos:
“O ovo revela o acabamento
a toda mão que o acaricia
daquelas coisas torneadas
num trabalho de toda a vida (…)
No entanto, o ovo, e apesar
da pura forma concluída
não se situa no final
está no ponto de partida (…)
A reserva que um ovo inspira
é de espécie bastante rara
é a que se sente ante um revólver
e não se sente ante uma bala.
É a que se sente ante essas coisas
que conservando outras guardadas
ameaçam mais com disparar
do que com a coisa que disparam.”
Outro exemplo do mesmo livro, O relógio:
“Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro
dentro das quais, como em jaula
se ouve palpitar um bicho.
Se são jaulas não é certo
mais perto estão de gaiolas
ao menos pelo tamanho
e quebradiço da forma.
(…) e de pássaro cantor
não pássaro de plumagem
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade
que continua cantando
se deixa de ouvi-lo a gente
como a gente às vezes canta
para sentir-se existente.”
Noutro livro, Educação pela pedra, encontram-se dois poemas paradigmáticos. Um deles, Catar feijão, é uma construção metalingüística, prática comum de um autor que refletia sempre sobre o próprio ofício:
“Catar feijão se limita com escrever.
Joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel.
E depois joga-se fora o que boiar.”
O outro é Tecendo a manhã, que descortina a tela social da qual depende cada pincelada individual:
“Um galo sozinho não tece uma manhã
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma tela tênue
se vá tecendo, entre todos os galos
(…) A manhã, tecida de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.”
Do título de uma das suas obras-primas, Uma faca só lâmina, poder-se-ia tirar uma idéia geral do seu estilo e da sua visão de mundo:
“da imagem em que mais
me detive, a da lâmina
porque é de todas elas
certamente a mais ávida
pois de volta da faca
se sobe à outra imagem
aquela de um relógio
picando sob a carne
e dela àquela outra
a primeira, a da bala
que tem o dente grosso
porém forte a dentada
e daí à lembrança
que vestiu tais imagens
e é muito mais intensa
do que pôde a linguagem
e afinal à presença
da realidade, prima
que gerou a lembrança
e ainda gera, ainda
por fim à realidade
prima, e tão violenta
que ao tentar apreendê-la
toda imagem rebenta.”
Para uma obra que rebenta qualquer tentativa de apreendê-la totalmente, o modesto apanhado acima tem somente a pretensão de açular a atenção do leitor, iscando-a para o risco de uma poesia superior. Esperemos que a posteridade sopre da glória de João Cabral de Melo Neto o leve, o oco, a palha e o eco, como sua lamentável adesão à Academia Brasileira de Múmias (bem, desse ridículo nem Guimarães Rosa se furtou) e a duvidosa honra de ser conhecido APENAS como o autor de Morte e Vida Severina. Seria bom para qualquer outro,não para o homem que escreveu O cão sem plumas.








