Já dizia o The Doors: “people are strange”. Cada vez mais esta constatação parece evidente nos dias atuais. É difícil fazer parte da Humanidade, em especial quando parte dos seus elementos são muito esquisitos e possuem pensamentos que escapam de qualquer lógica.
Estou dizendo isto por causa de um estranho evento que aconteceu nesta manhã. Como ando fazendo controle de cafeína, tomo uma taça desta beberagem negra por dia. Por este motivo, e para evitar tentações cafeísticas, dirijo-me toda a manhã ao McDonald’s e compro uma taça de café. Quem já comprou sabe como é: eles colocam em uma embalagem cor de cobre, tampada, e a pessoa sai pela rua portando algo que qualquer outro exemplar da raça humana – com exceção dos cegos – verá de longe que é um líquido quente, perigoso para o contato direto com a pele.
Bem. Após comprar o café e sair do McDonald’s, em torno de 15 metros de caminhada me separam do prédio onde trabalho. Ou seja, é uma distância curta, quase impossível de acontecer um acidente. E, no entanto, aconteceu.
Uma senhora, que estava há aproximadamente 50 metros de distância e do outro lado da rua, com o olhar fixo em mim (não pode nem dizer que surgi do nada), veio na minha direção com toda a velocidade. Eu imaginei que ela estava me enxergando e que iria desviar, mas, mesmo assim, me preparei para sair do caminho dela. Apesar de todas as cautelas, apesar dela estar me olhando, apesar de ter um enorme espaço para desviar e impedir o acidente, apesar de todas estas atenuantes, a mulher acertou o meu braço em cheio. E o café quente caiu sobre a sua roupa.
Deve ter doído. Pelo menos ela gritou bastante e fez bastante escândalo. Nenhuma gota de café me acertou, graças a Deus, por que não sou louco de ficar no caminho de um líquido escaldante.

Tirando as ameaças de processo feitas pela mulher (outro contrasenso absoluto, pois a – sou advogado, logo processos não me assustam e b – o grande gênio não sabe nem o meu nome e nem o meu endereço, ou seja, é mais fácil processar uma nuvem), fiquei pensando no que faz uma pessoa mediana atravessar a rua, acelerar o passo e se jogar de peito aberto em um copo de café quente. Isto não é um comportamento normal, típico de se esperar de alguém com o mínimo de sentido de auto-preservação. É uma atitude típica de quem deseja cometer suicídio mas permanecer vivo; esticar um barbante e tentar se enforcar pulando da mesa. Definitivamente, “people are strange”.
Outra prova desta estranheza total das pessoas é a discussão que se estabeleceu na mídia sobre a música feita por um tal de Michel Teló. Já vi mais de 20 pessoas que respeito xingando esta música e falando que ela não representa a cultura do país, que é um horror que as pessoas a escutem, que é prova de infantilidade mental e coisas do tipo. Ué. Se a música é tão ruim assim, por que as pessoas que não gostam dela simplesmente não a escutam? Vamos ao básico: suponhamos que eu esteja ouvindo rádio e a música começa. Troco de estação e, voilá, não escuto a música que me causa tamanho desgosto. É tão mais simples trocar o dial do que modificar o pensamento de um país todo… Do jeito que o assunto aparece nas conversas, parece que as pessoas estão obrigadas a escutar uma música que não gostam (comportamento característico de uma tortura), quando o mais correto seria pensar que basta não escutar a música para o problema acabar ao natural.
Parece-me uma pretensão muito grande destes “intelectuais” de dizer o que é cultura para o povo. Eu sou da época que cada povo fazia a cultura que merecia, ou que ela era o seu reflexo exato. E o Michel Teló, gostemos ou não, é o reflexo do país, que se assemelha cada vez mais a uma Nau dos Insensatos, onde todo mundo quer influir no que os outros pensam, agindo com extrema ilogicidade para impor o seu plano de vista.
Ainda bem que eu continuo exercendo a liberdade de não me auto-imolar nas ruas de Porto Alegre e continuo trocando o dial toda vez que inicia uma música que não gosto. Assim consigo ficar longe desta horda furiosa e insensata que se joga em cima de taças de café escaldante ou que são “obrigados” a ouvir uma música que não gostam.


Publicado por Gustavo
Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo