(...) «Um dia, sarabandeava sobre a Mesquita o primeiro casal de hildros, chegados numa lufada do Austro, descerrou-se a alma de Rafael a uma revelação deliciosa, mundo de coisas reprimidas e acumuladas atrás de trinta anos de candura. E a alma se lhe exaltou e descompôs. No repululamento infinito dos fustes de pórfiro e jaspe, na tortura dos arabescos, no tropel dos arcos, descobriu com alvoroço, como o sábio que decifrasse a leitura duma escrita misteriosa, as formas esbeltas das mulheres que uma vez vira dançar nos jardins de Sevilha. As pias, onde apodrentava a água benta dos esconjuros, fixaram em seus olhos curvas airosas, pouco vistas e mal ideadas; e até as urnas sacrossantas, de elipse cheia de requebros graciosos, lhe deram a imaginar o que seria num tronco núbil a quente sinuosidade. A mulher, em suma, a ele que fora casto e de mente pura, deparava-se-lhe em cada partícula do templo, desde o reflexo breve dum azulejo à própria cor da pedra trabalhada.
De começo, bastara à sua concupiscência o exercício doloroso da fantasia. Como amante, possuída a suspirar, a Mesquita entretinha-lhe febre e devaneios. Depois, com vertigem no pendor, Rafael enterrou dentes no pomo novo, saboreando desde a hora ociosa, de curso veloz, até o deleite carnal da Vénus mercenária, insaciado em sua fome. E convertera-se deste modo no mau servo, arrepelado de luxúria e comido de vícios.» ...
(continua)