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| Fotografia da minha autoria |
«Desolação, vento gelado, tempo dos dias mais curtos»
Avisos de Conteúdo: Homicídio, Saúde Mental, Relações Familiares Desestruturadas
O Uma Dúzia de Livros renasceu com uma nova identidade. Rita da Nova e Joana da Silva são co-apresentadoras do podcast Livra-te e quiseram aprofundá-lo com esta dinâmica de clube do livro, no entanto, continuam a ser formatos independentes, isentos de qualquer obrigatoriedade para os leitores e os ouvintes. Além disso, em vez de funcionar por temas, todos os meses existirão duas obras para serem descobertas.
LIVROS DE JANEIRO
A Joana selecionou A Troca, de Beth O'Leary, enquanto a Rita sugeriu Inverno, de Ali Smith. Estão ambos traduzidos em português e figuram na minha lista de desejos. Ainda assim, manifestou-se com mais intensidade o meu interesse em cruzar-me com a escrita de Ali Smith, portanto, priorizei a escolha da Rita.
A ÉPOCA QUE NOS ENSINA A SOBREVIVER
Os dias gélidos de inverno tendem a mortificar-nos com lentidão, na mesma medida em que despertam, em nós, um certo instinto de sobrevivência, uma certa vontade de procurar conforto, embora possamos movimentar-nos sobre o caos - físico e emocional. E foi nesta espécie de limbo que avancei na minha leitura.
«Sou filho de ninguém. Como uma flor. Cresço selvagem»
A premissa permite antever um retrato próximo da realidade. Mesmo não sendo autobiográfico, percebe-se que há uma urgência na autora para nos transportar e consciencializar para referências políticas e sociais. Neste caso em concreto, foca-se nas consequências do Brexit, na intervenção problemática de Trump e na questão dos refugiados. Em simultâneo, confronta-nos com o impacto da desinformação, das notícias falsas e da dependência do mundo digital. E cada uma destas temáticas é explorada no quotidiano dos protagonistas.
«A tua propensão para o egoísmo é que me preocupa, disse ela»
Inverno divide-se por fios soltos e complexos, que não estou certa de ter acompanhado e compreendido na totalidade. Não obstante, fiquei maravilhada com o seu processo narrativo e com a escrita de Ali Smith.
A DINÂMICA FAMILIAR
O início da narrativa é um pouco surreal e demorei a ambientar-me à sua energia. No entanto, tornou-se muito mais intuitivo quando se reuniram as personagens e a dinâmica entre elas se tornou o principal foco da ação.
«A generosidade dela abala-o quase tanto quanto a frieza da mãe»
Essencialmente passado no Natal, há, neste enredo, um relato que nos faz viajar até ao passado, descobrindo os desencontros, as mágoas, as falhas e os laços que se quebraram. Mas, quase como se a vida proporcionasse uma segunda oportunidade, as situações inusitadas e palco de tanta discórdia são, também, a demonstração de um amor profundo, só possível no seio familiar - que tantas vezes nos faz frente, continuando a amparar-nos as quedas, mesmo em silêncio -, porque a preocupação com os nossos não desvanece.
«Seria possível travar o desfile do tempo através de nós?»
Com pequenos momentos de tensão e pensamentos em suspenso, há nos diálogos destes intervenientes tão distintos uma ponte para reflexões de inúmeras naturezas, que nos convidam a olhar para dentro de nós.
O CAOS E A ARTE
Inverno, com o seu registo cómico-trágico, reserva-nos passagens com a dose certa de ironia. E sentindo o caos próprio da estrutura textual, somos igualmente impelidos a considerar a forma como observamos o mundo, como nos posicionamos e qual o papel que a arte pode exercer neste plano com tantas ramificações.
«onde é que nós estaríamos sem a nossa capacidade de ver para lá do que devemos ver»
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