Arnaldo Jabor – Amor é prosa sexo é poesia II
Onde estão os hippies, agora que precisamos deles?
Onde estão os hippies? Melhor dizendo, onde estão os movimentos alternativos neste mundo careta?
“Será que a vida vai ser sempre estes cappuccinos frapés? Estas ações na Bolsa, estes fluxos de capital, estes implantes de seios, por toda a eternidade?”, pergunta na internet, R.U. Sirius, o fundador da ciber revista Mondo 2000. Isto despertou a “boneca filosófica” em mim. Ou pare, ou leia até o fim.
Eu estava em Londres, em 1967, quando saiu o disco dos Beatles “Sargent Pepper”, e lembro que havia em King Road uma espécie de comício dissolvido nos olhares, nos sorrisos das pessoas, uma palavra de ordem flutuava no vento, blowing in the Wind, como catava o Bob Dylan. O mundo careta tremia, ameaçado de um lado pelo perigo do comunismo e, de outro, pela alegre descrença que os hippies traziam. O capitalismo rosnava de humilhação, condenado por fora e por dentro, como sistema injusto de produção e como repressor da sexualidade. Hoje, mudou tudo. Que aconteceu afinal no mundo, já que só nos restou esta muralha corporativa, este exército de executivos globais vorazes que, aqui em Nova York, ficam mais visíveis? O que houve no mundo foi o fim do sonho da unidade, o fim da possibilidade de uma “grande narrativa” – como dizem os pós-modernos”, cínicos e felizes com o alívio da obrigação de qualquer grandeza. O que acabou foi a ideia de “UM”. Acabou o anseio totalizante de se achar uma única resposta, desejo antiquíssimo de tudo reduzir a um símile do corpo humano, de modo que a sociedade funcione como um organismo sob controle. Isto se deu não só com o capitalismo real, mas com o próprio capitalismo.Depois da queda do Muro de Berlim, a arrogância dos EUA, em sua crença de que uniriam o mundo todo numa grande “mcdonaldização” da vida também caiu por terra, com o vexame do neoliberal da Ásia, Rússia, etc…
O americam way esbarrou nas diferenças culturais, na inércia da miséria, na solidez das supertições, na tradição teocrática de tantas culturas, no ódio racial entre balcânicos, na infinita fragmentação do mundo,no crescimento populacional. O que morreu não foi o socialismo nem o hippismo; o que morreu foi a racionalidade do planejamento. O paradoxo é que o mundo se globaliza em economia, mas e “balcaniza”em ilhas culturais psicológicas; melhor que ilhas, que dão ideia de unidades celulares, o mundo se “desunifica” em esponja, em vazios, em avessos, em buracos brancos que vão se alargando à medida que o tecido da sociedade “contínua” se esgarça. Não são “células de resistência”, mas “buracos de desistência”. Temos a sensação da caracterização do mundo, mas já há uma virtualização das reações alternativas, há uma revolução melancólica, muda, rolando nas bocas do mundo. Já existe um “neo-hippismo cibernético” visível na Internet.
Se acessarmos, por exemplo, o site WWW.disinfo.com, veremos que a desesperança de mudar o mundo já está parindo seus filhos alternativos. Milhões de “manos” cibernéticos acessam irreverentes e excêntricos webzines, que têm mais sofisticação e inconformismo que o festival de Woodstock.Esses movimentos não tem líderes utópicos, como nos anos 60. Nestes sites, podemos ver chats de psicodélicos alquimistas falando de biotecnologia, profetas de religiões comparadas e textos de literatura visionária, escondidos ali no coração da América “corporativa” e usando seus aparelhos. Todos estes movimentos (seria melhor dizer “espamos”?) – todos estes espamos de defesa contra a corporativização do mundo são afásicos não por ignorância, mas por escolha. Odeiam o lero-lero ideológico e não se explicam nem a si mesmos; não têm manifestos e, no entanto, todos se “unem” (Ó desejo de tudo englobar do qual não me livro!…) na recusa a levantar bandeiras, de garantir certezas, de conciliar com uma razão organizacional.
Diante deles, os heróis dos anos 60 ficam com cacoetes “de época” dos pioneiros ingênuos”.Eles trabalham com o humor, com o ceticismo visceral, com a paranóia organizada em teorias conspiratórias inverossímeis, mas não fazem isso com desejo de convencer ninguém.Há uma tribalização de grupos, sem proselitismo, há uma recusa ao mundo em denunciá-lo, mas aceitando-o como algo irremediável. Por dentro de seu luto, as tribos se desenham. O que os slakers ou os góticos ou os rastas querem é alcançar uma identidade alternativa. Como diz o R.U. Sirirus, na Internet: “Este tribalismo apolítico é autoperpetuante. Quando você estava querendo derrubar a “Amerika” o seu grito era: marche conosco!” Mas quando você quer uma identidade original, a popularização pode ser até uma ameaça ao seu segredo”. As tribos não querem a adesão de todos, pois elas não almejam o poder, almejam não tê-lo. Se antes a ideia de alienação era condenável, hoje a alienação é aquilo que se deseja alcançar.
Mas, você pode perguntar, ingênuo sessentista, por que, então, eles não mudam o mundo? Bem, primeiro eles não são burros e sabem que a sociedade hoje, com sua delirante complicação, não se presta a oposições simplistas ou otimismos fáceis. Diz Sirius,: “ Se antes, havia a polarização de ideologias em oposições binárias, pretos contra brancos, socialismo versus capitalismo, isso vinha de uma ideia de “sistema-contra-sistema’, de cultura contra cultura”. Tudo era banhado pela luz vertical e orwelliana das televisões massificadas, de uma mídia centralizada, buscando uma narrativa única. Vemos hoje que a distopia iluminista de Orwell foi depassada pelos restos podres do mercado e pela anomia (e anemia) de qualquer projeto totalitário. Que teremos no futuro? Na boa? Acho que teremos os terrorismos islâmicos, bombas de destruição em massa que cabem nos bolsos, escassez econômica, extermínios e um vaivém de fascismos nas nações emergentes.
No mundo central, teremos fria competência no main stream e “esponjas alternativas” na periferia.
As novas tribos de jovens pagãos não têm deus de esquerda ou de direita. Se antes eles professavam subculturas totalizantes, através de orientalismos bobos ou “holismos” diversos, hoje eles foram substituídos por brilhantes programadores de computação, hackers e pantadores de vírus, antropólogos de um absurdo que divulgam através, por exemplo, das “TAZ” ou “ZTA”s (zonas temporárias de autonomia). Eles Têm festivais “secretos” como o “burning man” em nevada ou Lollapalooza. Estas tribos estão partindo para uma prática “niezschiana” espontânea, pela produção de uma “arte –de –vida” (ou vida-arte), dividindo-se em dois grupos aparentemente antagônicos mas absolutamente concincidentes: nos que acreditam em tudo por escolha, em gnomos, em deuses, conspirações e alienígenas e naqueles que não acreditam em absolutamente em nada. Dizia Borges: “A esperança é o mais sórdido dos sentimentos.” Hoje, a desesperança total de inventar formas de sobrevivência, são como os índios, são como os loucos. É o que nos restará: os buracos esgarçados por entre a solidez paranóica das corporações globais, estragando, como um terrorismo mudo, sua eficiência sinistra. Aquele abraço, se você leu até o fim.
Arnaldo Jabor