A cidade apaga as suas luzes
pouco a pouco, como um corpo
desliga suas funções e amolece
sobre os lençóis amassados.
A cidade não quer dormir, mas dorme.
Amanhã os semi-escravos rolarão no trem,
no ônibus, no metrô, e agradecerão
por mais um dia de prisão perpétua.
Hoje, contudo, a cidade ordena que durmam.
Precisam estar a postos logo cedo,
os corpos repousados, refeitos, dispostos
a rodar a manivela da cidade.
Por isso a noite não perdoa
e os que não chegaram em casa a tempo
dormirão nas calçadas, na plataforma do trem,
no batente da loja, no cascalho da pracinha,
sobre o capô dos carros e a lona das carroças,
corpos caídos, encolhidos, fetais,
toda a cidade coberta por um tapete de corpos,
trabalhadores abatidos que ressonam,
vigiados pela lua-holofote;
tombaram roncando a caminho de casa
e acordarão aos bocejos com o novo sol.
Dali mesmo retornarão para as engrenagens
agradecendo aos maquinistas
o privilégio de ter vida e sangue para dar.
E levarão nos braços a pedra-travesseiro
e na roupa a fuligem do orvalho.
