TRAVESSURAS DOS MENINOS MAUS

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em “A Tribuna” de Santos, em 12 de outubro de 2010)

Como admirador de longa data de Mario Vargas Llosa, não só o maior romancista vivo da América Latina como também um dos maiores escritores do mundo, é claro que fiquei contente com o anúncio do Nobel.

Menos contente me deixou saber que essa esperada premiação vem sendo saudada, inescrupulosamente, mais como uma homenagem ao seu pensamento político, às suas posturas ideológicas [1], do que ao seu gênio narrativo, um triunfo da arte da ficção, que conseguiu tantas vezes satisfazer o  “apetite pela totalidade” que ele identificou como vocação maior do romance.

Paradoxalmente, porém, comentarei aqui o mais recente dos relançamentos que a Alfaguara vem promovendo da sua obra ,  e não se trata de nenhum dos apaixonantes romances de fôlego a que ele nos acostumou (A cidade e os cachorros, A casa verde, Conversa na catedral, Pantaléon e as visitadoras, Tia Júlia e o escrevinhador, A guerra do fim do mundo, História de Mayta, O falador, Lituma nos Andes, Os cadernos de don Rigoberto, O paraíso na outra esquina), com a exceção de três pequenos romances  (Quem matou Palomino Molero? e Elogio da madrasta são dois deles): a junção no mesmo volume de seu primeiro livro publicado, a coletânea Os chefes, de 1959, e o primeiro daqueles três romancitos, Os filhotes, de 1967, talvez sua experiência mais virtuosística e sensacional como escritor[2].

A Academia Sueca justificou a escolha de Llosa por “sua cartografia das estruturas do poder e mordazes imagens da resistência, da rebelião e da derrota do indivíduo”. A leitura do conto-título de Os chefes confirmará isso de imediato: ao narrar a insubordinação dos estudantes de um colégio contra o novo regime de provas a que serão submetidos, enfrentando um diretor tirânico e truculento, o jovem escritor de 23 anos mostrava mais a incipiente luta de poder e supremacia entre os próprios rebelados adolescentes, que não recuam diante da violência, da criação de facções e da opressão para serem líderes.

Códigos machistas brutais (ou sutis) e ritos de passagem perversos dominam as seis histórias de Os chefes (e também Os filhotes, publicado oito anos depois). E  o leitor vargallosiano perceberá o embrião de várias experiências futuras: o mundo do areal, de Piúra, de A casa verde (infelizmente, ainda um seus dos livros menos populares, e um dos mais brilhantes) aparece em “Um visitante, no qual nasce para a literatura um personagem constante na sua produção posterior, o cabo Lituma (de A casa verde, Quem matou Palomino Molero? e Lituma nos Andes), que vagará pela diversidade do Peru e suas fraturas sociais; no melhor desses textos iniciais, Domingo, vemos nascer a evocação do bairro de Miraflores, em Lima, com sua rapaziada tornando-se adolescente e depois alcançando a idade adulta, que fará parte de A cidade e os cachorros, Conversa na catedral, Tia Júlia e o escrevinhador e até mesmo do tardio (é de 2006) e a meu ver muito fraco e diluído com relação aos demais As travessuras da menina má (embora não tão fraco e diluído quanto A festa do bode).

O conto Domingo é excelente, contudo Llosa desenvolve o assunto vertiginosamente, e com uma crueldade inaudita em Os filhotes, no qual usa  uma forma insólita (é preciso ler para crer) de narração, uma espécie de voz coral, que passa da terceira para a primeira pessoa do plural, e em que parece que o bairro está tomando a palavra: um garotinho tem o pênis mutilado por um cachorro, e como ao longo de sua formação esse fato o tornará um excluído: sendo o mais forte, o mais atlético, o mais rico da rapaziada que anda junto em Miraflores, falta-lhe no entanto o atributo que a nossa sociedade convencionou como o símbolo da presença masculina (tanto que seu apelido será Piroquinha), e todos os seus esforços revelam uma caricatura do machão, do “chefe”: “Quando Lalo se casou com Chabuca, no mesmo ano em que Mañuco e Chingolo se formavam em engenharia, Cuéllar [o Piroquinha] já sofrera vários acidentes e seu Volvo vivia amassado, arranhado, com os faróis rachados. Você vai acabar morrendo, meu coração, não faça loucuras e o velho já era o cúmulo, rapaz, até quando ia continuar assim, outra gracinha dessas e nunca mais lhe daria um centavo, que repensasse e se corrigisse, se não for por você faça isso por sua mãe, ele falava pelo seu próprio bem. E nós: você já está grandinho para andar por aí com essa molecada, Piroquinha. Porque agora dava para isso. Passava as noites jogando com os notívagos do El Chasqui ou do D´Onofrio, ou conversando e bebendo com os viados ou os mafiosos do Haiti (quando será que trabalha, dizíamos, ou será mentira que trabalha?), mas de dia vagabundeava de um canto de Miraflores para o outro, e era visto nas esquinas, vestido como James Dean (jeans justos, camisa colorida aberta do pescoço até  umbigo, uma correntinha de ouro dançando no peito e se enredando entre os pelinhos, mocassins brancos), jogando pião com os moleques, batendo bola numa garagem, tocando gaita. Seu carro andava sempre cheio de roqueiros de treze, catorze, quinze anos e, aos domingos aparecia no Waikiki… com bandos de guris, olhem, olhem, está ali, que  bonitinho, e que bem acompanhado, que jovial: subia um por um na sua prancha havaiana e ia com eles para lá da arrebentação. Ensinava-os a dirigir o Volvo e se exibia para eles fazendo curvas em duas rodas no Malecón e os levava ao estádio, ao catch, aos touros, às corridas, ao boliche, ao boxe. Pronto, dizíamos, era fatal: viado. E também: mas o que mais lhe restava, era compreensível, desculpável só que, irmão, está cada dia mais difícil andar com ele, na rua todos o olhavam, assobiavam e apontavam…”

     Enfim, uma imagem pra lá de mordaz, uma cartografia definitiva da resistência, da rebelião e da derrota do indivíduo numa estrutura de poder que chega à mais recôndita intimidade.


 

[1]  Não consigo ter simpatia ou admiração pelo lado “pensador político” de Vargas Llosa (embora o considere um formidável crítico literário), e a sua campanha para presidente do Peru já foi um episódio lamentável, pelas bandeiras neoliberais que defendia. Talvez ele tenha passado muito tempo da sua vida em seminários, em congressos, em palestras, cursos em Princeton e quejandos, num meio desodorizado e desidratado das convulsões sociais, e perdeu a noção da realidade que só reaparece quando ele escreve ficção, a verdade da mentira (apesar de que, pelo andar da carruagem, pelo que constatamos nos seus últimos livros, até esse dom está meio bruxuleante).

O que mais me impressiona em Vargas Llosa é sua aceitação pacífica da mentira da verdade, tal como aparece num hilariante texto que escreveu aqui no Brasil. Será cinismo ou necessidade de acreditar? Será que ele acha mesmo que há algo como uma “imprensa livre”, desinteressada e objetiva? Que nós vivemos num “mundo livre” , em que as notícias são veiculadas de forma realmente democrática, como se não vivêssemos numa civilização dominada pelo hegemonia do mercado. Vejamos:

“ A impressão que me fica de uma semana intensa passada nesse país, entre o Rio de Janeiro e São Paulo (com direito a uma rápida escapada até o pequeno paraíso de Búzios), durante a qual,
fiel à minha vocação de leitor inveterado de jornais, tomei café da manhã todos os dias mergulhado nas abundantes páginas de “O Globo”, “O Estado de S.Paulo” e “Folha de S.Paulo”, os três principais jornais do país. Excelentes, os três. Bem escritos e otimamente diagramados, com rica informação local e internacional, bons colunistas, pouco sensacionalismo e quase nenhuma fofocagem
”. Uau, Deus é brasileiro mesmo, só aqui encontramos tais jornais desinteressados, pouco sensacionalistas, preocupados unicamente em dar notícias da forma mais imparcial possível (este trecho, assim como os próximos,  foi tirado de um artigo que ele escreveu em 14 de  junho de 2007). E aqui nem estou discutindo a qualidade dos três jornais citados (que, dentro do panorama disponível, ainda são o que melhor temos).

Mas o aspecto mais hilário e grotesco ainda está por vir:

“O último número da revista “Veja” — com uma tiragem de um milhão e duzentos mil exemplares por semana — contém uma excelente reportagem investigativa sobre esse “socialismo do século XXI” inventado pelo comandante Hugo Chávez e que ele, a golpe de petrodólares, empenha-se em disseminar por toda a região. O texto, assinado pelo jornalista Duda Teixeira, que averiguou os dados in loco, é preciso. Alguns exemplos ali expostos demonstram a velocidade e a obscenidade com que os colaboradores políticos mais próximos do caudilho-paraquedista enriqueceram no poder

Vejam só, há uma pessoa que acredita na VEJA, que não a toma pelo que é: uma revista desavergonhada e afrontosamente tendenciosa, parcial, e sobretudo desonesta, sob o  ponto de vista intelectual,  nos meios que emprega para subliminarmente passar essa tendenciosidade e essa parcialidade (basta lembrar do desprezível necrológio, mínimo em termos de espaço–e qualquer leitor de outro veículo da imprensa lembrará do espaço considerável que foi ocupado por essa morte– e preocupado em diminui-lo como homem militante sem nem a contrapartida de uma visão mais acurada da sua obra,  de José Saramago). Como um escritor de romances que desvendaram mecanismos de poder e de manipulação da verdade pode aceitar assim sem mais nem menos o teor de uma “reportagem investigativa” da VEJA?  Por puro masoquismo, só mais um trecho:

“Apesar da pavorosa realidade de corrupção, favorecimentos pessoais, demagogia e autoritarismo que relata, a reportagem da “Veja” não é totalmente pessimista. Por outro lado, confirma algo de que eu já suspeitava depois de ver a maneira corajosa com que a oposição venezuelana se mobilizou contra o fechamento da Radio Caracas Televisión: que, dessa vez, o
caudilho venezuelano deu um passo em falso e o povo venezuelano começou a abrir os olhos para o monstro que criou ao depositar sua confiança e seus votos em um demagogo que pode levar o país à ruína e a uma ditadura totalitária. As pesquisas feitas pelo Instituto Hinterlaces, de Caracas, e publicadas pela “Veja”, falam por si: 78% dos venezuelanos desaprovam o antiamericanismo de Chávez; 85% condenam o financiamento político a outros países; 86% não querem um socialismo à cubana; e 86% são contra o confisco de propriedades privadas. Mais: 40% dos venezuelanos que votaram em Chávez nas eleições de dezembro passado declaram que hoje votariam contra ele.”

    Chego a desgostar da premiação de Llosa após ler um texto como este. Aliás, a própria VEJA  não perdeu tempo e na sua paupérrima matéria (em que se enfatiza mais a “lucidez” do conservadorismo adotado por ele do que a grandeza de sua obra) sobre o Nobel do nada lúcido peruano, proclamou: Llosa lê a VEJA!

[2] Os dois já haviam sido lançados num mesmo volume pela Nova Fronteira, anteriormente, e acho que isso atrapalha um pouco a reputação literária de Os filhotes. Prefiro a solução da Companhia das Letras que publicou o texto sozinho, em ótima tradução de Sérgio Molina, e marcando sua relevância no conjunto da obra, mesmo tendo sido publicado entre dois monstros, A casa verde & Conversa na Catedral.