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| Fotografia da minha autoria |
«As pegadas impressas na alma são indestrutíveis»
O cesto das pinhas oscilava com leveza. Ao fundo, ouvia a voz da minha mãe, num murmúrio que me fez desconfiar. Aproximei-me, procurando perceber se era um lamento ou se eram pensamentos soltos, de quem tem a mente sempre em movimento. Não era nenhuma das opções. Ainda a medo, um miar ternurento ecoou pelo telheiro. E ali estavas tu, com esse olhar cor de azeitona e pelo malhado, a acolher-nos como teus donos.
Tiveste sempre um brilho especial. Uma aura que inspira, equilibra e transcende de entendimento. No alto do teu sangue de felino, ancoraste a tua bagagem dentro das nossas quatro paredes caiadas de sonhos. Mesmo quando partias à aventura, tentando reconstruir a rota que te levaria de regresso a casa, arranjavas forma de voltar ao nosso colo, seguindo as pistas que, acredito, foste renovando para que nunca desaparecessem - e tivesses sempre um ponto de retorno. Eras do mundo - e pouco nosso -, porque vieste livre e não seria justo encurtar-te o horizonte. Porém, ficava mais sossegada quando te encontrava à porta e, depois, te vinhas aninhar no meu regaço. Ficávamos nesta paz insubstituível. E eu sabia que estava tudo no seu devido lugar. Hoje, neste emaranhado de memórias inesgotáveis, sinto o peso da saudade.
Há pegadas marcadas no meu peito. Estejas tu onde estiveres, guias-me por uma onda de amor, que só é possível ser apreendida nesta convivência com patudos de alma pura. Espero que sejas tão feliz aí como eu fui contigo. Que tenhas um vaso confortável onde te possas enrolar. E que nunca te recusem uma saída, independentemente das horas a que pretendas deambular. És a prova de que não é o tempo que eterniza o amor. Por muito que me faltem peças da tua história, foste - fomos - um lar. E permanecerás como parte da nossa identidade.
Que nunca te esqueças do caminho que te faz sentir em casa.
