Já seguia a Carmen Garcia no Instagram há algum tempo. Não concordo com todas as suas opiniões, mas gosto do facto de abordar assuntos difíceis numa rede que pode ser tão superficial como o Instagram. Não sabia bem o que esperar desta colectânia de crónicas que foram sendo publicadas no Público entre 2019 e 2022 e que foram organizadas por Isabel Alçada. Fiquei agradavelmente surpreendida. Carmen aborda temas como a leitura em Portugal, o abandono dos idosos, o feminismo, a maternidade, o divórcio, a surdez do filho, a morte medicamente assistida, a saúde mental, a toxicodependência, entre muitas outras coisas relacionadas com a profissão de enfermagem.
Há poucos momentos em que alguém consegue descrever exactamente aquilo que sentimos mas temos dificuldade em pôr em palavras, e isso aconteceu-me várias vezes ao longo deste livro:
Sabem, 2022 foi um ano de subtracção. Menos uma pessoa importante nas contas da minha vida. Mais uma fotografia com as datas de nascimento e morte. Mais uma coroa de rosas brancas em forma de coração e um cartão com uma pomba a dizer «Eterna saudade». Mais uma hora dentro de uma funerária a ver um catálogo de caixões, quando tudo o que queria era fugir. Menos um lugar para visitar. Mais um cadeirão vazio. Mais um buraco no peito para não fechar nunca mais.
Também gostei muito da forma como a Carmen abordou a surdez do filho, quando ele lhe perguntou porque era o único surdo na escola:
Quero dizer-lhe que é o único porque é o mais especial, mas raios me partam se vou ceder à tentação de romantizar a diferença. A diferença mostra-se, traz-se à rua e inclui-se. Mas em nenhuma circunstância se deve romantizar, especialmente quando condiciona opções e oportunidades.
Um excerto de uma crónica sobre o aborto:
A maturidade e a maternidade trouxeram-me a certeza de que ser contra o aborto significa não o fazer, mas jamais significa impor a outras mulheres que não o façam. Cada mulher com a sua escolha.
Por fim, um excerto de uma crónica sobre o Alzheimer:
Fernando Pessoa escreveu que vivemos da memória. E eu tenho a certeza que nada nos resta quando a perdemos. Existe um corpo, sim. Mas um corpo sem memória é uma casa vazia. Sem gente, sem livros e sem retratos nas paredes. E quem de nós deseja existir numa casa assim?
Foi um livro que li devagarinho. Afinal, a vantagem das crónicas é podermos ler uma ou duas por dia e ir intercalando com outros livros. E ficarmos a pensar naquilo que lemos. Enfim, gostei muito, e acho que quem gosta de seguir a conta do Instagram também vai gostar.
