Muito atrasada, foi esta a minha participação no meu próprio desafio, em Fevereiro.


O desafio para Fevereiro era ler um clássico russo; isto deve-se ao facto de, ao longo dos anos, ter visto alguns desafios que pegavam no aniversário da Revolução Russa para incitar a ler o género (e, como não quero apoquentar ninguém, achei por bem colidir um pouco nestas temáticas; veja-se o tema para Março, a leitura de um clássico de autoria feminina).

Queria ler este livro há muito, e já há uns cinco anos que o tinha na estante. Gogol é um nome grande na lista do cânone dos russos, ficando sempre atrás de Dostoevsky e de Tolstoy, e eu nunca lera sequer os seus contos mais conhecidos, como "O Nariz" ou "O Capote". De Dead Souls, apelava-me o título (como me apela também o Diary of a Madman); sem ter explorado a temática, descobri que o livro que tinha em mãos era suposto vir a ser uma trilogia.

Gogol escreveu o primeiro volume, queimou grande parte do segundo e faleceu antes de chegar ao terceiro. Viveu no estrangeiro durante grande parte da labuta da sua escrita, e viu o livro mal recebido (pelo título e, posteriormente, pela temática). Terá, assim, sido um parto difícil - em termos de também de personagens e narrativa, talvez. E terá sido isto que o levou a queimar parte do manuscrito (ainda não tinha Bulgakov vindo declarar que os manuscritos não ardem).

Portanto - temos, actualmente, disponíveis, o volume I completo, e parte do volume II. A minha edição inclui ambos; o volume II "acaba" a meio de uma frase, e tem várias notas sobre a sua incompletude. A edição da Wordsworth inclui ainda uns capítulos finais realizados por um terceiro, para tentar dar um fim à narrativa, mas esses eu não li, por respeito à obra de Gogol, suponho.

Numa nota: o volume I funciona perfeitamente bem sozinho, e o II arrasta. Quem fora ler o volume I sem conhecimento prévio destas questões, não ficaria a pensar no que viria a seguir.

Dead Souls remonta a 1842, antes da emancipação dos servos na Rússia, que viria a dar-se em 1861. É um livro do género picaresque, uma viagem com sátira, situações absurdas, um anti-herói como protagonista - um homem que aposta, bebe, mente, e, já agora, tem em andamento um esquema para enriquecer rapidamente. Mas isso não sabemos logo de imediato, porque Gogol esconde, até o quase final do volume I, o propósito real do seu protagonista, Chichikov, quando viaja pela Rússia fora de modo a adquirir os servos mortos (as "almas mortas" do título) de proprietários.

E, para perceber isto, é preciso compreender um pouco mais da Rússia latifundiária: os servos eram medidos como "almas", nos censos russos. Não sendo o mesmo que escravos, os servos eram, ainda assim, considerados propriedade, tendo muito poucos direitos; e os impostos que os proprietários russos pagavam, nesta época, eram baseados no número de almas que possuíssem.

Mas os censos só se realizavam a cada cinco ou dez anos, e gente morre nesse período de tempo. Há pestes, há colheitas menos boas. E Pavel Ivanovitch Chichikov desenha um plano para adquirir (com o menor custo possível, é claro) a vários proprietários os seus servos mortos, que ainda constam das listas dos censos, pelos quais eles pagam impostos. Compra-os no papel. Quer aliviá-los dos impostos, diz ele. O motivo que leva Chichikov a fazer algo tão aparentemente absurdo só nos é revelado no final do volume I, e não irei spoilar; mas é extremamente inteligente, e base para uma boa história.

E, no processo, à medida que Chichikov se infiltra na comunidade, aprendemos sobre a vida na Rússia rural à época: os proprietários, os camponeses, as tavernas; os preços das "almas", as negociações, as várias respostas diferentes e os diferentes encontros de Chichikov; aliás, as várias personagens que o protagonista encontra são supostamente personagens-tipo, que representam várias facetas russas da época. E Chichikov adapta o seu discurso a cada um.

Fica, portanto, durante longa parte da narrativa, a questão: qual a verdadeira motivação para comprar os servos já falecidos? Quem é Chichikov, e de onde veio? 

Há elementos humorísticos vários na narrativa - é uma sátira da cultura russa e uma condenação do sistema de servidão. Além disso, qualquer tipo de crítica tinha de ser escondido por alguma camada de humor. As caricaturas das pessoas russas, as suas especulações quanto às motivações do protagonista, os devaneios... Há ainda as várias palavras que não chegaram ao manuscrito final.

A ideia por trás do livro é muito boa, novamente; a narrativa está repleta de detalhes históricos, de aspectos socioeconómicos da vida na Rússia neste período, o modo de pensar das suas pessoas... o livro está, efectivamente, muito bem escrito. Mas não me cativou. É lento, arrasta. O facto de não saber muito sobre a época pode não ter também ajudado.

Mas foi uma leitura interessante, e quero conhecer mais de um autor que teve uma vida intrigante.

3,5/5