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«Ler é desvendar»
O momento em que a leitura passou a ser parte vital - regular - da minha realidade permanece bastante nítido, porque foi transformador, porque marcou a certeza de existirem outras manifestações artísticas que me preenchem as medidas e que me permitem explorar diferentes mundos, perspetivas e rasgos criativos.
Estava no 11º ano e tinha de escolher uma obra para apresentar à turma, numa aula de Português. Aquele contrato de leitura podia ter sido catastrófico, uma vez que não sabia que tipo de histórias me interessavam, que autores poderiam corresponder aos meus gostos. Até então, não tinha hábitos de leitura, mas adquiri-os depois disso, porque, mesmo às cegas, tive a felicidade de escolher um livro extraordinário. Duro, mas que despertou a vontade de não só ler mais exemplares da autora, como também de partir para outros nomes.
Na altura, desfrutávamos de uma total autonomia para decidirmos o que queríamos ler. Se, por um lado, essa liberdade era ótima para descobrirmos a nossa identidade/individualidade, alargando o espectro da literatura analisada em aula, por outro, era assustador, sobretudo por não termos grande bagagem. Se não éramos leitores com conhecimento na área, como é que saberíamos escolher? Era um risco que teríamos de correr, é por esse motivo que considero programas como o Plano Nacional de Leitura (PNL) uma ferramenta tão útil.
será o pnl infalível?
O Plano Nacional de Leitura veio colmatar algumas assimetrias, combatendo a iliteracia e promovendo o contacto com livros distintos. Sou-vos sincera, não sei quais são os critérios para construir as listas de obras recomendadas, como é que esse processo é desenvolvido, definindo quais é que são válidas para propor e quais é que não encaixam no propósito. Às vezes, vou-me cruzando com algumas críticas e, sem querer ser injusta, já me me falta acesso a todas as partes da questão, consigo compreender a acusação de um certo elitismo. E um projeto desta natureza quer-se democrático, realmente centrado nos leitores e amplo, até porque um título com selo PNL pode ter peso. Num tempo em que é prioritário lutar por uma maior representatividade nas leituras da sociedade, ter um projeto que invista nisso é uma maneira de permitir que os leitores, principalmente os mais novos, sejam confrontados com outras realidades e as normalizem. Se o plano não evolui e apenas se foca nos nomes de sempre, fica complicado derrubar certas barreiras.
Em simultâneo, fico a pensar que esta problemática é muito mais estrutural. O PNL não é infalível, precisa de se ir modernizando para responder às necessidades de cada leitor, mas não é o principal culpado. Talvez nem exista um só culpado. Porque é a forma como procuramos incutir a leitura que precisa de uma reviravolta.
estaremos mesmo a incentivar à leitura?
Este tema ficou a dançar no meu pensamento desde que uma editora demonstrou a sua indignação por nenhum dos seus livros ter sido aceite pelo PNL, não só porque compreendo essa frustração, mas também porque entendo que nem todos os títulos possam integrar o catálogo. Coloquei-me no lugar de cada um dos intervenientes e consigo perceber ambos. E, por isso, fiquei a refletir na questão em termos mais práticos.
Eu trabalho com miúdos do 5º ao 9º ano e vou acompanhando a relação que têm com a leitura, quase da primeira fila. E se os mais novos até leem com gosto, os mais velhos desesperam por terem de o fazer. Quando esta polémica despertou, pensei neles e, sem querer ser mal interpretada, a verdade é que para eles é-lhes indiferente qual a editora do livro: a preocupação maior é ser uma história que lhes roube pouco tempo.
Há umas semanas, alguns alunos do 9º perguntaram-me se os ajudava a escolher a obra que apresentariam às respetivas turmas. É nestes momentos que, sem qualquer tipo de imposição, os procuro desafiar, mas sendo sempre honesta. Eles sabem que, com a idade deles, ler também não era algo que me movesse, sabem que este vínculo foi sendo trabalhado e foi crescendo; eles sabem quais são os autores que me entusiasmam, que livros gostaria que lessem. Acima de tudo, sabem que estou ali para conversarmos francamente.
Assim, com a lista do PNL aberta e total transparência, disse-lhes os títulos que já tinha lido e adorado, que livros não tinha lido, mas dos quais tinha boas referências, que livros requerem um pouco mais de maturidade para serem compreendidos. Não acho que eles sejam desprovidos de sentido crítico, mas faltam-lhes hábitos de leitura e aquela flexibilidade interpretativa que ganhamos quando lemos com mais regularidade. Qual seria a lógica de lhes aconselhar uma história que só os deixaria desmotivados? O meu objetivo é o oposto.
Enquanto percorria a lista, que pode não ser perfeita, fiquei feliz por ver nomes tão diversos como Ondjaki, Ana Pessoa, Afonso Cruz, só a título de exemplo. Sei que ainda precisamos de alargar mais as opções, mas sinto que estamos a ir num bom caminho. Mas este caminho talvez seja inglório se a aposta não for mais profunda, se essa promoção da leitura não for contextualizada e próxima, se continuarem a incutir nos alunos que só existe um tipo de leitura de qualidade: a que é analisada em aula. Os contratos de leitura são um instrumento educativo maravilhoso, mas perde fôlego por ser momentâneo, isolado. Enquanto assim for, continuarei a ver miúdos a escolher obras não pela curiosidade de as descobrirem, mas por serem as que têm menos páginas.
o que temos para oferecer?
O debate anterior prolongou-se entre nós, comigo a alertar-lhes que, muitas vezes, o número de páginas não é sinónimo de facilidade/complexidade. E chegamos a um consenso. Eles precisam de ser estimulados, sim, mas também precisam de ser ouvidos. E eu acho que estas avaliações, embora pertinentes, também transmitem uma noção de abertura falaciosa, porque acredito que é uma prática que necessita de consistência e continuidade; precisa de ser trazida para o centro da discussão e ter visibilidade durante uma aula inteira.
Reconheço a importância de conhecerem textos como O Auto da Barca do Inferno ou Os Lusíadas, mas, após tantos anos de ensino, será que só temos estas obras para oferecer? Porque não analisarmos a fundo um livro de Maria Judite de Carvalho? Porque não trazermos Pardalita, da Joana Estrela? Porque não criarmos clubes de leitura dentro da turma e, em vez de analisarem uma só obra, focarem-se num género e serem os alunos a proporem os títulos que lhes interessam? A partir daí, acredito, poderíamos estabelecer aprendizagens bem mais significativas. Pessoalmente, acho muito mais estimulante contactarem com diferentes estilos, visões, perspetivas e, deste modo, aguçarem o sentido crítico, do que ficarem presos a uma só história.
Isabel Alçada, numa entrevista concedida no ano transato, afirmou que «não há nada pior em educação do que a aldrabice» e eu recupero estas palavras porque me parecem cruciais: é que os alunos rejeitam certas obras e nós, para além de não procurarmos compreender os motivos, não os sabemos cativar com alternativas. Preferimos continuar a insistir nos mesmos modelos, mas depois ficamos chocados com a falta de interesse, que, por consequência, se estende à disciplina em si. Mudar assusta, exige compromisso, mas compensa.
Claro que este trabalho não fica circunscrito à sala de aula, pode e deve ser fomentado em casa e em todos os meios em que se insiram. Além disso, podem chegar ao fim da escolaridade obrigatória e continuarem a defender que não gostam de ler ou, então, podem descobrir esse gosto mais tarde. No entanto, pelo menos, foram-lhes dadas condições plurais, sem julgamentos. Este investimento demora, mas é urgente.
incluir os leitores na leitura
É importante lutar para que livros que abordem temáticas tão relevantes para os jovens sejam considerados e incluídos no PNL, até porque podem ajudá-los a conhecerem-se melhor, a compreenderem determinadas realidades ou, ainda, a sentirem que têm ali um lugar seguro, que não estão sozinhos. Precisamos de histórias que falem o seu dialeto, contudo, parece-me que para isso acontecer tem de existir uma abordagem mais estrutural. Não estar no PNL não significa que não os venham a ler. Não os sabermos cativar é que pode levar a esse desfecho. E cativámo-los em aula, quando lhes permitimos acesso a obras diversas, muito mais próximas das suas vivências, inseguranças e dúvidas. Não acho, de todo, que só possam ler enredos que sejam quase uma extensão do seu quotidiano, mas acho importante começarmos por aqui, para que se identifiquem e para que sejam eles a querer avançar para outro tipos de histórias, para serem desafiados.
Por muito solidária que esteja com a editora em questão, porque estou, porque acredito que tem um catálogo amplamente estimulante, a minha maior preocupação é se realmente estaremos a incentivar à leitura. E, se não estivermos, o que podemos fazer para colmatar essa falha. Enquanto os programas curriculares seguirem sempre os mesmos parâmetros, também será difícil que o Plano Nacional de Leitura ou outra proposta com esta natureza tenha uma resposta diferente, porque continuaremos a andar em círculo e a repetir padrões.
Os livros bons, como também referiu Isabel Alçada, são aqueles que interessam aos leitores. E, para isso, não pode existir uma só lista, não pode existir obrigatoriedade e portas fechadas. É aos respeitarmos as suas individualidades, trazendo-as para o centro da discussão, que lhes garantimos ferramentas que os ajudem a estruturar os seus gostos. Se continuamos a excluir potenciais leitores da leitura, da literatura, o que sobra? É por esse motivo que, antes de me questionar sobre a presença/ausência de um determinado livro no PNL, insisto em perguntar: estaremos mesmo a incentivar à leitura ou estaremos apenas a validar egos?
