Devemos a Rainer Maria Rilke alguns dos mais belos poemas já escritos acerca de Deus. A maior parte de sua obra gravita em torno de temas espirituais, bastante evidentes em O livro das horas, A vida de Maria, Elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu. As imagens, sentimentos e atitudes religiosas que seus poemas expressam, no entanto, são vibrantes demais, complexos e multifacetados demais, singulares demais para estarem contidos em alguma tradição. Em vez disso, vislumbra-se neles uma espiritualidade especificamente contemporânea, capaz de reverberar as sensibilidades de um modo que as formas religiosas tradicionais não conseguem mais. São poemas escritos com os pés plantados no limiar do presente — aquele ponto a partir do qual tudo é futuro, e qualquer vida, ação ou pensamento tem o passado às costas. É um ponto de vista necessariamente solitário, como observou Carl Jung em “Problemas psíquicos do homem moderno” (2013, § 150), pois nele tudo é singular, e dele se vê o nunca avistado, os caminhos jamais trilhados. Poucas são as pessoas capazes de sustentar essa solidão. Rilke fez dela uma profissão de fé. Por isso, podemos encontrar em seus poemas a originalidade assombrosa e íntima de possibilidades que não sabíamos ter, se formos capazes de pisar, como ele, nesse limiar do presente; se formos capazes de manter os olhos abertos e os sentidos atentos à voz que chama de um não lugar transcendente e futuro, e faz a alma arrepiar.

Como muitos europeus do início do século XX, as formas de apresentação tradicionais do cristianismo nas igrejas católicas e protestantes não mobilizaram Rilke. No entanto, duas viagens à Rússia em companhia de Lou Andreas-Salomé, em 1899 e 1900, o impressionaram pela religiosidade do povo simples. Essas experiências inspiraram um livro de contos, Histórias do bom Deus, e, mais tarde, os poemas de O livro de horas. Diferentemente da poesia religiosa mais tradicional de louvor a Deus e suas perfeições — por exemplo, os poemas de Juana Inés de la Cruz ou os de São Francisco —, na obra de Rilke encontramos um anseio justamente por aqueles aspectos de Deus que sua imagem luminosa e perfeita deixa à margem. Como observou Pascal (Pensamentos, § 233), se Deus é infinito, então está infinitamente distante de nós, humanos. Para haver algum tipo de relação com Deus, são seus aspectos finitos que precisam se apresentar. O anseio por experiências espirituais diretas marcou os movimentos religiosos do século XIX e foi uma característica do Romantismo. Pode-se dizer que havia um anseio pela apresentação de imagens humanizadas de Deus. A poesia de Rilke materializou parte desses anseios. Em seus poemas, encontramos imagens de proximidade, vulnerabilidade, dependência divinas, misturadas com a apresentação de aspectos sombrios e mesmo terríveis. Em razão disso, Rilke consegue moldar em seus poemas uma relação de amor humanamente possível com Deus, que às vezes se confunde com as imagens de um amor carnal, uma paixão.
Um exemplo da proximidade não apenas espiritual, mas também pessoal e mesmo física, com que Deus aparece em seus poemas, pode ser encontrado nestes versos de O livro das horas:
Se tantas vezes te importuno, ó Deus meu vizinho,
batendo forte à tua porta na noite extensa,
é porque te ouço respirar, da tua presença
sei: estás na sala, sozinho.
Se de algo precisares, não há ninguém ali
que possa te trazer um gole d’água sequer.
Vivo sempre à escuta. Dá-me um sinal qualquer.
Estou bem perto de ti.Entre nós há apenas um muro, coisa pouca,
por mero acaso aliás;
bem pode ser que um grito da tua ou minha boca —
e eis que se desfaz
sem só rumor ou ruído.
…
(trad. por José Paulo Paes, 2012, p. 59)
Neste outro poema, do mesmo livro, o amor a Deus aparece quase como o amor dos pais por seus filhos, vale dizer, por alguém vulnerável e dependente:
Deus, que será de ti quando eu morrer?
Eu sou o teu cântaro (e se me romper?)
A tua água (e se me corromper?)
Sou teu agasalho, sou teu afazer.
Vai comigo o significado teu.Não tens mais sem mim aquela casa, Deus,
que com quentes palavras te acolhia.
Perdem teus pés exaustos as macias
sandálias: também elas eram eu.De ti desprende-se o teu longo manto.
O teu olhar, que a minha face, quente
coxim acolhe, virá entrementes,
virá procurar-me longamente
e deitar-se depois, ao sol poente,
entre pedras estranhas, nalgum canto…Deus, que será de ti? Tenho medo, tanto…
(trad. por José Paulo Paes, 2012, p. 65)
Não se trata aqui de temor a Deus nem de fé em Deus, mas de cuidado e receio pelas suas vulnerabilidades — portanto, de uma experiência de contato direto: o inverso da relação que se pode ter para com um ser infinito. Os aspectos de Deus que Rilke salienta são aqueles que se assemelham aos de indivíduos humanos, os que tornam possível uma relação pessoal com alguém incompleto e em constante transformação. A busca de aperfeiçoamento e, nesse sentido, de uma transformação pessoal, é atribuída a Deus neste outro poema de O livro de horas:
Tens meu amor, ó mais gentil das leis,
Que no conflito nos amadurece.
Grande saudade que não desfazemos,
Floresta imensa donde não saímos,
Canção cantada em nossa quietude,
Obscura teia onde a emoção se prende;
Tão infinito, imenso te tornaste
No dia mesmo em que nos concebeste,
E tão maduros teus sóis nos fizeram
Tão amplos, de raízes tão profundas,
Que agora em homens, anjos e Madonas
Podes em paz te aperfeiçoar.
Descansa a mão na encosta dos teus Céus,
Recebe mudo o que em trevas te damos.
(trad. por Mariana G. Vasconcellos)
Na maravilhosa correspondência de Lou Andreas-Salomé com Rilke, esses temas são diversas vezes abordados. Em uma de suas cartas, ela exorta Rilke a manter-se fiel a seu “Deus escuro”. A escuridão como atributo divino é um dos traços marcantes de vários de seus poemas. Em formulações bastante românticas, Rilke faz o elogio da escuridão como potencial infinito, ilimitado, em oposição à definição e clareza da luz:
Tu, obscuridade de onde emana
meu ser, amo-te mais do que à chama
que o mundo reduz
ao círculo de tua luz:
ali dentro, resplandece;
fora dali, nenhum ser a reconhece.Mas na obscuridade tudo se contém:
as formas e as chamas, os animais e eu também,
nela que consorcia
existências e energias —Pode bem ser que uma força sombria
se mova em minhas cercanias.É às noites que minha alma se confia.
(trad. por José Paulo Paes, 2012, p. 61)
A tematização do aspecto sombrio do divino aparece novamente nas Elegias de Duíno, desta vez em uma sequência de versos sobre o caráter terrível dos anjos e de todo contato com eles:
Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? …
(Primeira Elegia, trad. por Dora Ferreira da Silva, 2001, p. 17)
A temática do anseio também aparece com frequência nos escritos de Rilke, constituindo parte integral não apenas de sua perspectiva poética sobre a realidade, mas mesmo de uma proposta ética para a vida humana. O anseio, mais do que um sentimento, é colocado como um modo de vida, uma postura em relação às outras pessoas, a si mesmo e a Deus. Esse anseio rilkeano tem duas facetas interligadas: ora é descrito como amoroso, ora espiritual. Como veremos, não são coisas separadas: tanto o anseio pela amada como por Deus são descritos em termos tão apaixonados quanto religiosos. Esses dois “objetos” do anseio são, antes, dois pontos em um mesmo caminho cujo objetivo final é o próprio anseio, no qual o objeto pelo qual se anseia é finalmente transcendido. Veremos, a seguir, como essa concepção se articula nos poemas e escritos de Rilke dando a Deus um caráter futuro — seja no sentido de estar por vir, seja no do que virá a ser.

O tratamento dado à temática amorosa é infundido de intensa qualidade religiosa. As primeiras cartas a Lou Andreas-Salomé indicam que esse era, de fato, um impulso pessoal seu. O poema abaixo, que aparece primeiro em correspondência a ela, é tão intensamente místico que depois vem a figurar em O livro das horas, como uma oração dirigida a Deus:
Apaga-me os olhos: inda posso ver-te,
tranca-me os ouvidos: inda posso ouvir-te
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso inda evocar-te.
Quebra-me os braços, e posso apertar-te
com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá,
e se me deitares fogo ao cérebro
hei-de continuar a trazer-te no sangue.
(trad. por Paulo Quintela, 1967, vol. I, p. 146)
Nesses versos, mesmo ao escrever sobre e para aquela que já era sua amante, Rilke enfatiza não a relação ou a união com a amada, mas o anseio não realizado ou não realizável. Para ele, o essencial não é o objeto, seja ele humano ou divino, mas o anseio em si mesmo enquanto ação ou processo que transcende seu próprio objeto. Esse anseio parece constituir, para Rilke, um caminho ético e espiritual, um modo de vida, para o qual serve de modelo o tipo coletivo das “amantes”, recorrente em seus poemas e sobretudo nas Elegias de Duíno. O anseio das mulheres apaixonadas e abandonadas, cuja epítome é poetisa renascentista Gaspara Stampa, torna-se puro na medida em que não tem satisfação, que transforma aquela que o experiencia em veículo do anseio:
Se a nostalgia vier, porém, canta as amantes;
ainda não é bastante imortal sua celebrada ternura.
Tu quase as invejas — essas abandonadas
que te pareceram tão mais ardentes que as
apaziguadas. Retoma infinitamente o inesgotável
louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda
mesma foi um pretexto para ser — nascimento supremo.Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio
esgotado, como se as forças lhe faltassem
para realizar duas vezes a mesma obra.
Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,
cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem
qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou
como ela? Frutificarão afinal esses longínquos
sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se
do objeto amado e superá-lo, frementes?
Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no voo
mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detém.
(Primeira Elegia, trad. por Dora Ferreira da Silva, 2001, pp. 19–21)
O impulso, portanto, é algo valioso por si só, independente ou mesmo à revelia do objeto a que se destina. Ou, antes, o objeto fornece o impulso, mas não o destino: é justamente por não haver destino que o anseio torna-se puro, e é o anseio em si mesmo, enquanto movimento, que importa, que aproxima de Deus — que é, mesmo, uma maneira de encarná-lo. Paradoxalmente, nesse anseio irrealizável, apresenta-se uma possibilidade de relação com Deus como de algo que se desdobra no tempo, diversamente descrito como processo, movimento, construção, espera. Viver o anseio por Deus é já uma forma de estar intimamente próximo dele, de criá-lo, gestá-lo. Essa parece ser a ideia subjacente à curiosa projeção de Deus no futuro que aparece em alguns dos escritos de Rilke:
… se o senhor reconhece que ele não se encontrava em sua infância, nem antes […] — e se o senhor sente com temor que Deus também não existe agora […] —, então de que lhe vale sentir falta dele, que nunca existiu, como de algo passado, e procurá-lo como se o tivesse perdido? Por que não pensar que ele é aquele que está por vir, aquele que se encontra diante da eternidade, o futuro, o derradeiro fruto de uma árvore cujas folhas somos nós? O que o impede de projetar seu nascimento nos tempos por vir, de modo a viver sua vida como um dia doloroso e belo na história de uma grande gravidez?
(Carta de dezembro de 1903; trad. por Pedro Süssekind, 2019, p. 59–60)
Nessa versão otimista de Esperando Godot, o que se espera não é a chegada de um Deus transcendente, vindo da eternidade, do além. Em vez disso, o Deus embrionário de Rilke será criado a partir daquilo que existe aqui e agora, das vidas, ações e experiências de indivíduos autênticos. Esse contato parece dar-se menos como um encontro e mais como algo que é produzido, algo que vem a ser justamente em virtude da ação criadora das próprias criaturas, como vemos neste poema:
Obreiros somos — mestre, aprendizes, serventes —
e te construímos, ó grande nave altaneira.
Às vezes chega a nós um peregrino silente;
ei-lo que como um clarão cruza as nossas cem mentes
e trêmulo nos traz alguma nova maneira.Galgamos andaimes que ao nosso passo estremecem;
maciços os martelos que nossas mãos sustêm;
isso até aflorar-nos a fronte uma hora que se
irisa e fulge como se de tudo soubesse:
como o vento vem do mar, é de ti que ela vem.Ouve-se então um malhar de de martelos inúmeros
que, golpe após golpe, pelas montanhas se expande.
Só te deixamos quando a noite cai e no escuro
podemos já ver-te os vagos contornos futuros.Deus, como tu és grande.
(trad. por José Paulo Paes, 2012, p. 63)
As imagens do divino, os sentimentos evocados e o tipo de relação que se tem com ele indicam algo maximamente valioso e que por isso não tem como ser completamente descrito ou contido em teorias ou doutrinas. Essas imagens, sentimentos e relações alteram-se de uma época para a outra. Na obra de Rilke, alguns dos anseios espirituais de nossa época foram elaborados e apresentados de modo quase visionário. Salientamos neste artigo três conjuntos de imagens recorrentes em seus poemas: imagens de proximidade e colaboração, imagens sombrias e terríveis, e imagens de anseio amoroso pelo divino, que salientam o divino que ainda não é, o divino que está sendo em nós gestado, o divino futuro. Os três elementos delineiam um divino mais humano do que o consagrado pelo teísmo clássico da tradição cristã. As imagens produzidas por Rilke não sugerem que algo humano ou subjetivo estaria sendo projetado no divino, mas que esse é um traço do divino mesmo. São visões do divino — muito embora tingidas e filtradas pela sensibilidade particular do poeta —, e não experiências subjetivas do divino. Em todos esses elementos há uma espécie de humanização do divino, por oposição a uma imagem herdada de pureza, luz e perfeição consagrada no teísmo cristão clássico. O Deus vivo, na poesia de Rilke, é um Deus com características humanas e próximas, alguém que podemos amar, alguém que ele próprio provavelmente amou.
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[Uma versão ampliada do presente artigo foi publicada na revista Síntese, 52 (2025): 281-309.]
Rogério P. Severo é professor do Departamento de Filosofia da UFRGS. Mariana G. Vasconcellos é mestra em História da Arte e doutoranda em Filosofia na UFRGS.