A criança como morada
infância, filosofia, literatura, comportamento, estado de prontidão
Sibélia Zanon* – Copo de felicidade? Copo de felicidade? Chinelo de dedo e bermuda branca. A cidade se convertia em mar e o moço passava carregando uma estrutura de isopor e uma promessa. No isopor, os copos de felicidade eram feitos de camadas de creme e chocolate, coroados com a metade de um bombom sonho de valsa. Sonhar por inteiro é difícil. O copo de felicidade remetia a qualquer coisa infantil, não necessariamente ao infantil enquanto idade, mas ao infantil enquanto prontidão. Prontidão para descobrir o novo sabor, apostando que ele pode ser bom. Tenho pensado que em tempos de ventania e intempérie, é bom se manter em prontidão. Uma prontidão aquecida para apostar em algum futuro. Mas aonde conseguir o calor? Que morada seria essa, capaz de isolar o vento? Ontem, Mia Couto estava proseando na Feira do Livro, no Pacaembu, e trouxe uma resposta: “Minha infância é minha primeira pátria. Me sinto exilado quando não moro na infância.” Além de falar, Mia também escreve: “Não aprendi a colher a flor sem esfacelar as pétalas. Falta-me o dedo menino de quem costura desfiladeiros. Criança, eu sabia suspender o tempo, soterrar abismos e nomear as estrelas.” Ontem Mia Couto me trouxe uma resposta. Foto: Acervo da Autora. Tenho também pensado nessa morada que é o estado de ser infantil – não precisa ser uma infância açucarada e a morada nem mesmo precisa ter paredes, mas precisa existir, precisa ser quente, e precisa ser acessível. Percebi que não sou a única pensando nessas coisas porque hoje o tema voltou mais uma vez, quando Paulo Werneck, da Quatro Cinco Um, perguntou na mesma Feira do Livro, desta vez para Ailton Krenak, se ele tinha saudades da infância. “Eu não tenho saudade da infância porque eu nunca saí da infância. Vocês estão vendo que eu sou um cara infantil. Eu preservo a criança que eu fui, sou, numa boa. Eu não tenho vergonha de ser criança. Tentaram me convencer de que ser adulto era uma boa. Mas eu desconfiei”, respondeu Krenak. Desconfio também. Renato Noguera é outro que anda buscando a criança. Outro dia mesmo ele disse numa aula que assisti: “É preciso estar em estado de infância para se reconectar com a natureza, habitar o reino da imaginação para uma comunicação mais ativa com o mundo”. Uma comunicação mais ativa com o mundo significa o mundo reverberando mais em mim e eu vibrando mais no mundo, nós dois nos tocando dentro de um mesmo circular, como uma roda gigante, como um copo de felicidade ou, pelo menos, como um corpo com presença. Sibélia Zanon* é jornalista e escritora, autora de Espiando pela fresta e Casca Vazia.
Texto originalmente publicado em Revista Fina