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| Fotografia da minha autoria |
«(...) sentiu uma certeza forte de que mais uma parte de si, do seu passado, estava a afastar-se lentamente,
quase impercetivelmente, na escuridão»
Gatilhos: Referência a Suicídio e Alcoolismo, Morte, Luto, Relações Tóxicas
A minha participação em clubes de leitura tem respeitado o princípio de diminuir a lista de livros por ler. Mas também pode acontecer a redução de outra lista: a dos livros a comprar. E foi assim que o de John Williams veio morar cá para casa, pois já queria lê-lo há algum tempo e foi a escolha da Rita, este mês, no Livra-te.
estranho, curioso e com uma personagem memorável
Stoner é a história da personagem homónima. William veio de uma família humilde, dedicada à agricultura, e foi para a universidade para se especializar na área agrícola, mas a sua vida sofreu uma reviravolta e acabou a estudar literatura, tornando-se professor de literatura inglesa. O enredo foca-se no seu percurso académico, o que parece não ter um grande ponto de interesse, no entanto, é a essência de Stoner que o abrilhanta.
O ritmo é lento, mas deslumbra, porque a aparente pacatez deixa-nos intrigados, faz-nos questionar sobre a importância de abrandar e de viver os acontecimentos sem esperarmos fogo de artifício e experiências memoráveis. Por vezes, precisamos só que as coisas sigam o seu rumo, sem malabarismos, sem esperarmos que tudo seja mais do que é. Em simultâneo, percebe-se que existe um tom intimista, solitário e melancólico.
Uma característica que me fascinou foi mesmo o estilo da narração, porque parece que exclui o lado emocional da equação e pretende manter-nos à margem, como se o objetivo fosse impedir a criação de qualquer vínculo com a história e, sobretudo, com a personagem. Não obstante (e acho que é aqui que se nota a genialidade do autor), sentimos tudo aquilo que é descrito. Aliás, creio que há momentos em que projetamos ainda mais a tristeza, a revolta e os rasgos de esperança.
Senti a escrita algo académica, talvez pelo ambiente retratado, mas fui ficando presa a estas páginas e cada vez mais rendida a Stoner, até porque senti que o desenvolvimento desta personagem é mesmo o ponto chave: William é credível e é absolutamente fascinante na sua trivialidade. Ademais, a sua integridade é admirável, visto que se manteve sempre fiel aos seus princípios. Teria sido fácil quebrar, procurar agradar, mas soube escolher as suas batalhas e nunca desistiu delas, não por capricho, mas por acreditar em todas elas.
Um pensamento que me acompanhou durante a leitura, e que vi validado no Posfácio, é que este livro é sobre amor e as várias formas que pode assumir. E não deixa de ser interessante que uma narrativa construída para um certo afastamento emocional tenha esta identidade tão vincada. Mas senti mesmo que o protagonista colocou amor em tudo aquilo a que se dedicou.
Stoner alberga, também escolhas, a importância do trabalho, «um casamento destrutivo» e um «lar envenenado». Alberga muitas guerras internas, saúde mental e um novo fôlego. Acompanhando a vida de William desde a infância até à sua morte, esta obra reforçou a minha admiração por histórias sem personagens heroínas. Talvez não seja uma obra que mudará a minha vida, talvez nem me recorde dela pelo enredo em si, embora algumas passagens se tenham colado à minha pele, mas amadurecerá com o tempo. Além disso, houve vários momentos que me deixaram emotiva e a refletir sobre tudo o que poderia ter sido e não foi.
Stoner esteve entorpecido e desabrochou. Quis abraçá-lo inúmeras vezes. E sei que nunca o esquecerei.
Nota: Esta publicação contém links de afiliada da Wook e da Bertrand
