XXI POEMAS │ PAULO PLÍNIO ABREU
Literatura Brasileira, Poesia, Análise Literária, Paulo Plínio Abreu, Barrocas e Metafísica
Paulo Plínio Abreu [Belém PA │1921-1959] fez parte da geração de Mario Faustino, Benedito Nunes, Max Martins. Tradutor de Rilke e T.S.Eliot. Foi publicado (postumamente) em 1978 pela Universidade Federal do Pará. POESIA DO LITORAL Por Ney Ferraz Paiva Oh, naufrágio, oh, sol, presa complacente da tinta possessiva com que tudo se inscreve. Todo o livro é um livro de bordo. Edmond Jabès O título “Poemas” evoca os elementos provisórios de uma obra marcada indelevelmente pelo precário - este precário que em Paulo Plínio Abreu constitui o início e o fim de uma viagem que nunca inicia nem termina, antes está fadada a ser uma espécie de emblema da corrosão, da doença, da ruína. Não é uma poesia da contemplação, a isto ela se esquiva; é uma poesia do litoral, do lançar-se, da navegação. Entretanto, as bordas que aqui se esgarçam de súbito se comprimem num acontecimento de vertigem, incêndio, naufrágio. Poesia e narrativa épica reconstituem o uivo aterrador da destruição. A primeira palavra, do primeiro verso, desta série de vinte e um poemas que o poeta organizou, estabelece de imediato a unidade e a ordem de uma história que é a repetição e a diferença de um mesmo desastre mítico-lendário: “Barco” rumo a Tróia incendiada. Uma viagem armada para o combate fatal. No entanto o que a poesia celebra aqui, é a força guerreira dos que sucumbem pelo caminho, dos que não chegam, nem regressam. Do comedor de fogo e do Polichinelo. Uma tripulação sem nome. Sobre ela a calamidade de noites e ventos que não cessam. A viagem torna-se exílio e punição; a vitória, o duplo da derrota. Uma travessia que não se completa. Paulo Plínio Abreu multiplica uma vez mais o pensamento antigo de uma Grécia a que todos retornam – de Baudelaire a Jorge Luis Borges, de Murilo Mendes a Mário Faustino – para dar forma a um herói moderno. Ligado a essa tentativa, nosso narrador-poeta não se define pela rota nem da Ilíada nem da Odisséia. Ele proclama a metáfora do limiar. Se a beleza de Helena promove a errância dos homens, ela mesma converte‐se num impedimento. “Diante de tua beleza as coisas se apagaram. /És o golfo onde escondi meu barco doente/e a cripta onde deporei meus mortos...”. O malogro aqui se antecipa e se renova, fazemos parte dele, a cidade sitiada e tomada onde vivemos, nossa sensibilidade bélica. Rastejamos a tempestade. Ney Ferraz Paiva. Poeta, autor de Val de Cães (2012); Eu queria esta com vocês hoje (2013). XXI POEMAS │ PAULO PLÍNIO ABREU I O barco e o mito Barco de madeira construído no ar para a viagem do mito. Nau feita de vento e força de um pensar antigo. Tua quilha tem o sabor do sal das águas fundas e de um peixe que atravessou a garganta de um morto. Na tua vela tracei o emblema da rota que um dia imaginei olhando a Grande Ursa nos caminhos da noite. Nau sem porto, as águas te seduzem e contigo me arrastam. Barco feito de mito, construído no espaço com a matéria das nuvens. Nau feita com o bico de uma ave e um desejo de fuga. Nau que a ti mesma te armaste do nada que podemos. Nave do nada feita e quase ave desfeita em vôo puro e quase mito. 2 Ode na praia do Leme A noite é tua prostituta do Leme. E com ele dissolves a pobreza dos homens no mito de tua carne. O vento vem do mar e dos navios que passam carregados de vento e sal para as Antilhas. A morte vem das ilhas trazida pelo vento desta noite nesta praia deserta. A noite é tua, nela está o emblema da tua posse esquiva, e os seres se incorporam ao casco dos navios e sem partirem vão‐se para sempre. 3 Poema Diante de tua beleza as coisas se apagaram. És o golfo onde escondi meu barco doente e a cripta onde deporei meus mortos. Ave e orvalho, mulher e cornamusa. Somos irmãos no mito e eis que te refaço com a seiva de meu ser. De ti recolho este secreto espanto, este secreto mel. Em ti refaço a viagem não feita, o riso não rido e o amor não amado. És a beleza mesma adiada no tempo e nos outros a necessidade de sua perfeição. 4 Madrugadas de um estranho encanto Madrugadas de um estranho encanto que me comoveis como o vento e o sossego das tardes de um sempre e das noites que nunca descobri no puro ou impuro canto. A luz escarlate baixava como um inseto na varanda perdida. Um pássaro morto caía de súbito entre plantas de um antanho desejo que o orvalho molhava e era espanto mesmo no corpo da noite despovoada e fria com as agonias de um frustrado espasmo. 5 Elegia Por que de estranhas terras eu te acompanho lua solitária E durmo ouvindo os teus passos de anjo pela noite Quando os velhos desejos desaparecidos voltam à flor das ondas E a noite do exílio levanta as suas árvores de sonho, De um tempo imemorial eu acompanho as tuas viagens, Tu que vestes os mortos com o que cai do coração dos vivos Eu te acompanho pelo céu escuro Sentindo como tua a vertigem da morte que anuncias. Tu que de um tempo longo ergues teus olhos sobre o tempo E apenas náufragos aportam a esse país estranho em que tu vives. Ouço tua voz cair no mar da madrugada Para que o céu se deite sobre ti como um sepulcro E as estrelas brilhem nesta noite escura como incêndios. 6 O comedor de fogo Veio do comedor de fogo e de seus milagres a esperança impossível. Do comedor de fogo e de seus milagres à porta de sua tenda Onde dormiam os cães numa nuvem de moscas. Veio do comedor de fogo a esperança dos mundos impossíveis. Veio dessa lembrança hoje apagada pelo tempo o sombrio desejo de evasão. Veio do comedor de fogo a visão da vida aberta como um grande circo E o convite irreal para a distância onde se esconde a morte. Até o amor se perdeu nessa lembrança de um estranho comedor de fogo E toda a infância confundiu-se com os milagres desse saltimbanco E de seus cães doentes à porta de sua tenda. 7 O polichinello O seu segredo era como o dos outros. Seus olhos eram de vidro azul e na boca vermelha o riso da ironia. O humor profundo, amargo e doloroso vinha de sua boca; o riso da sabedoria e do desespero gritava da sua boca aberta em sangue. O riso do polichinelo vinha do coração ausente, era uma advertência. Era apenas o riso e falava de um mundo maior que sua alma. 8 Viagem ao sobrenatural Mundo pressentido e oculto na palavra anjo à porta de Tobias, na viagem não realizada mas da qual se trouxe um pássaro que não pertence a nenhuma fauna e um peixe de fogo; na palavra mãe onde há o mistério do cotidiano incompreendido; na palavra mosca onde se faz presente o desespero da escolha entre o mal e o deserto; na palavra rosa, corpo e essência do efêmero. Na imagem vista no espelho, a boca e os olhos na voragem do tempo oferecem o amor, puro e inacessível. A voz presa no disco da vitrola é apenas o outro lado eterno. 9 Soneto Antes pudesse o Aquário refletir-se nas águas do teu pranto, o teu olhar semita conduzir-me como nos céus o vento arrebata uma estrela e anuncia morte, desolação, naufrágio, amor. Mas preso no sargaço escuro de um póstumo canto, ajunto fragmentos de mim, de minha infância, e o gosto de uma majestosa e angélica beleza. A salvação não quero, antes perder-me e achar-me como hoje repartido em fragmentos de amor na púrpura da tarde, reconhecido em múltiplos cantares, ou nas ardências de um postremo dia. 10 Poema primitivo Não esculpirei meu sonho sobre as nuvens pois que elas se perdem nos ermos do céu e um dia voltam para molhar a terra. Nem sequer o amianto me parece seguro para guardar desse fogo a ânsia mais veemente ou o delírio mais casto. A poeira se esvai e os que passarem a levarão consigo embaixo dos sapatos como os mortos a receberão sobre os olhos. Na pele de um deus não estará seguro pois breve é o respeito dos homens e o amor das mulheres. Talvez na asa direita de um pássaro ou no seu bico agreste. No fundo mesmo do mar não estará seguro pois que os ventos poderão arrebatá-lo para atrelar sua força à cauda dos veleiros. E assim não haverá lugar onde escondê-lo. Sonho que esculpirei então no tempo que não é dos homens e que morre e renasce a cada instante no peito donde brota a chama deste amor tão puro. 11 Poema sobre a morte Ela virá dos mares. Sentiremos o mistério dessa atração irresistível. Sentiremos o frio em que desabrochará essa flor maravilhosa Que perdida no inverno era o destino informe e desconhecido. Ela virá dos mares como as perdidas aventuras E será o convite fatal. 12 Ode à minha alegria De ti que poderei fazer se me dominas como a viagem ao viajante e os ventos do mar aos pássaros que voam? De um território vens, profundo e largo, em ti caminham vozes que outras vozes acordam, em ti caminham dores há muito apaziguadas. Em ti passam corcéis de fogo que sobre a pele deixam a marca do silêncio, em ti flutuam sonhos. De onde vens, para onde vais quando me tocas com a ponta dos teus dedos? 13 Fragmento Na rosa de ontem vi o mistério do corpo fechado aos segredos da morte. No efêmero eterno um dia concebido vibrante e inconstante o segredo de estar em véspera de sono. A delícia do amor jamais celebrada, as mãos que se entregaram as lembranças que vêm de longe frias como a noite. O desejo que cresce mudo sem palavras. As chaves do mundo para sempre perdidas. 14 Suicídio Inevitavelmente os cães uivarão dentro da noite e o vento sacudirá as árvores frias do jardim quando tu fores. E o medo virá como um abraço inevitável. Os vermes subirão da terra e se postarão nos degraus da escada à espera da morte. A música que todos ouvirão será a tristeza e o silêncio chegará ninguém saberá donde: todas as portas estarão fechadas, todos os homens estarão dormindo. 15 A estranha mensagem Ele veio nas trevas quando havia silêncio e de novo trouxe a ternura dos galhos tombando para a madrugada. Eu subi do fundo do mar como um líquen liberto para ouvir a sua voz que era imensa e trazia a ansiedade das flores explodindo, mas só vi o silêncio enorme como a noite. E ela chorou dentro de minha tristeza porque era como a revelação do que eu havia perdido. Ainda trazia nas mãos o frio dos troncos úmidos da noite, e nos olhos a humildade da terra encharcada de chuva. Um dia eu descerei verticalmente e para sempre ao fundo deste mar onde ela mora como um barco de pescadores desaparecidos. 16 Recomposição do enigma Venho do fulgor de tua beleza e espero o eclipse que deveria ter-te anunciado. Sou quem não foi senão espanto mas quem tua beleza bebeu e embriagou-se num porto dessa Tróia incendiada. 17 Lembranças de um espantalho Lembro-me que era um espantalho e que balançava no ar no caruncho da tarde o seu frágil corpo de pano tanto mais terrível quanto mais humano pois algo havia de humano no ar da tarde ou no espantalho que me lembro ter visto. Era só um espantalho agitado no ar pelo vento da tarde. A chuva caía-lhe na cabeça grotesca. Um verme subia no seu corpo para roer-lhe a madeira. E eu quis pousar no seu ombro o meu cansaço de ave. Mas algo havia no seu ser que me aterrou. 18 Envoi Nesta noite tosca recolho os pássaros feridos, as estrelas mortas e as naus que encalham no país do algures. Nesta noite vazia recolho o que perderam as aves no seu vôo, o que os peixes trouxeram, o que as águas à praia lançaram inutilmente: o resto da salsugem dos mares apagados; o corpo dos suicidas, os resíduos humanos o que é reles ou torpe conchas do mar espesso, cabeças de hipocampos, o vento que violento soprar do céu noturno; o nada que nos seres se encorpa e faz-se engulho; o corpo do espantalho e o negrume da noite para fazer com isto uma dádiva inútil numa hora vazia. 19 Poema No puro o impuro na solidão a voz no morto a vida extraordinária me sacudiram como um dia as grades do colégio sacudimos com as mãos. Pássaros voavam em direção à noite. Éramos puros Mas na pureza a impureza em nós estava e nos guiava por um caminho maravilhoso. Não existiam sinais no céu para guiar-nos. 20 Noite A noite sacudia as árvores dormidas e afagava a plumagem dos pássaros nos galhos. Lembro que o vento espertava o silêncio no ar e na quilha dos barcos afogados. Noite que chamava os mortos e fazia chegar a mim o seu chamado do ermo em que jazia. Noite em que do céu caiu o fruto da vida e não colhemos. Noite despojada de todos os artifícios. Despregada da grande árvore do nada e carregada de tudo em viagem para um tempo sem fim. 21 Canção azul O tempo chegará da palavra invisível transformada em pássaro e que acorde lembranças há muito esquecidas no coração sepulto. O tempo afinal virá o tempo sem limites em que os enforcados mortos e vivos e uma lua romântica das noites da infância voltem a dançar no ar da manhã. PENSAMENTO E INTENSIDADE NA POESIA DE PAULO PLÍNIO ABREU Por Nilson Oliveira I A poesia de Paulo Plínio Abreu tem um vigor que, tal como todo grande projeto literário, confronta o tempo, rivalizando ombro a ombro com o presente e lançando questões [imagens inusitadas] que, pela potência intempestiva, remetem o pensamento literário para as vertebras do por vir. Seus poemas nos trazem uma experiência de desenraizamento, ou seja, de um deslocamento do estabelecido, do que está amarrado a uma cultura do mesmo, pois há na escrita de Paulo Plínio Abreu um sinuoso jogo movediço, no qual as imagens deslizam pela superfície do não familiar. É sempre uma cena de estranhamento ou de novas imagens. Com Ele não há planos fixos, mas vôos, ventos, ondas: “O vento vem do mar e dos navios que passam / carregados de vento e sal para as Antilhas”: Ode na praia do Leme. A poesia de Paulo Plínio é sempre um êxodo, um fluxo operando por “linhas de fuga”, o que consiste em pensar de outra maneira, erigindo uma outra paisagem para a cena literária, pensando o não pensado do pensamento. Corte finíssimo, abertura, pensamento que é pura duração: “Nele a cada instante, o movimento já não é, mas isso porque, precisamente, ele não se compõe de instantes, porque os instantes são apenas as suas paradas reais ou virtuais, seu produto é a sombra de seu produto. O ser não se compõe com presentes. Portanto, o produto é o que não é e o movimento é o que já era. Em um passo veloz, os instantes e os pontos não são segmentados”. Essa é a cadência da Poesia de Paulo Plínio, matéria e acontecimento, feixe aberto no horizonte, já não há presente ou passado, apenas duração. Nela o poeta descortina o seu próprio conceito de tempo e, com isso, sedimenta sua obra: “Nau sem porto, /Barco feito de mito, construído no espaço /com a matéria das nuvens”: O Barco e o Mito. Nessa direção, mergulha ao fundo de cada empreendimento, contudo deslocando-se para um ‘sem fundo’, que se abre – continuamente – noutras experimentações do fazer literário: “As palavras foram na infância os seus brinquedos / e não compreendeu mais tarde a sua própria linguagem / cheia de estranhos sinais; o coração adolescente / dormiu nas estrelas em obscuras viagens”: O Mistificador. Trata-se, sem dúvida, da infância desenhada como a imagem que se transforma constantemente – o devir criança do pensamento, alheio às regras da lógica, que produzi uma palavra que não cede e a um só tempo não se deixa nomear. Paulo Plínio foi uma singularidade. Quanto à sua poética, não se deixou alinhar pelas tendências predominantes de sua época, estando desde sempre „fora do lugar‟, navegando, tal como nos diz Francisco Paulo Mendes: pelas “Iluminações, para qual a poesia é o reflexo ou lampejo de uma outra realidade, oculta, transcendente” [1]. Há na poesia de Paulo Plínio uma miríade de encontros, uma verdadeira nutrição expressa em influências determinantes [Rimbaud/ Mallarmé], que remetem o poeta para um círculo mais exigente. Esse é o seu investimento, o combate na direção dos encontros, mas também, dos deslocamentos, estando desde sempre em movimento, sendo sempre outro. A sua escrita age silenciosa e encontra no sujeito a decisão de não ser, que consiste no desejo nômade de convocar o ausente para tornar real sua presença – fora do sujeito e do mundo –, na sua realidade de escritura. Seu lugar é o não lugar. Esse é seu combate, sua matéria de fim e de começo, ofício de interminável busca. II Mas há também Rilke, e é com ele que Plínio trava sua experiência decisiva, mergulho intenso, encontro, deflagração no sentido de uma produção, pois há um efeito rilkeano na escrita de Paulo Plínio. Nessa direção afirma Paulo Mendes: “Um dos aspectos da poética de Paulo Plínio a exigir atenção é o da sua temática. São numerosos os temas: o da viagem, o de uma região maravilhosa, o do amor e da amada, o da infância, o do anjo, o da pureza, etc. E dominando todos esses o tema da Morte. Como se verifica, ainda uma temática rilkeana” [2]. Efeito que nada tem a ver com “fazer parecido”, isto é, de repetir o que o poeta disse, mas de produzir semelhança, arrastando “o texto ora para as margens, ora para o meio, ora para o fora ou o dentro, em uma escrita-experimento, sem dualidades, todavia, com o rigor necessário próprio à interpretação como musicalidade cuja potência criativa exige uma espécie de ascese do texto” [3]. O tema da morte torna-se um ponto de interação entre Plínio e Rilke, ambos navegando na mesma Rota, cada um à sua maneira, interpretando, produzindo multiplicidades. Criam, a partir do tema da morte, suas próprias noções, são retratos mentais, mas um só tempo maquínicos. Neles a morte é pensada como algo intimamente ligado à vida: “Tu que veste a morte com o que cai do coração dos vivos”, nos diz Paulo Plínio; ou “o morrer que seja verdadeiramente parte desta vida”, como afirma Rilke. Tanto em um caso como em outro é a morte acontecendo como algo que é “nosso”, mas que não nos cabe controlar. Como não pensar em Hölderlin: Viver é uma morte, e a morte também é uma vida. Por certo Hölderlin foi a referência silenciosa que frequentou as leituras de Rilke e Paulo Plínio. Poderoso encontro tríplice, bela experiência de atravessamento, portanto de Afecção, “efeito de um corpo sobre o outro”, e também feito sobre minha própria produção, prazer ou dor, alegria ou tristeza. As afecções “são passagens, devires, ascensões e quedas, variações contínuas” [4]. O poder de ser afetado em Paulo Plínio Abreu desdobra-se na potência que engendra uma prática de escrita, o que implica num fazer desejoso que faz da escrita um instrumento de ação, verdadeira máquina abstrata, sempre aberta, sempre por fazer-se, que combate pela criação de outra paisagem para a literatura: “mundo pressentido e oculto” [Viagem ao sobrenatural]; mundo fora do mundo, realidade que se concretiza por esse fora: “é na realização desse fora que começa a criação literária” [5]. O Fora é uma tempestade de forças não estratificadas, informes, um espaço anterior, no qual as coisas não são representativas, mas singulares, como uma linguagem outra, fora do usual, fruto de uma experiência da escrita. Um Exercício de Estilo: “é escrevendo que se vira escrevedor”. Nessa formula escrever torna-se uma experiência outra, trabalho de artesão, na direção do indeterminado da escrita. A literatura é uma saúde. A saúde como literatura consiste em inventar um povo que falta. Fazer-se estrangeiro na sua própria língua, criando um devir outro da língua: “uma minoração da língua maior”. Já não se trata mais simplesmente de fazer o texto, mas criar outra sintaxe, algo que não parte do preexistente, que inventa sua própria lógica de uso das palavras, elevando a linguagem a seu limite, valendo-se de “algumas palavras que ainda não tenham idioma” [6], lançando a escrita para zonas de inventividade, para um espaço de criação. Criar é, nesse sentido, produzir forças, como a dos Poemas de Paulo Plínio, uma verdadeira tempestade de sons, traços, imagens, um bloco de multiplicidades em que o estilo denota uma potência e a um só tempo nos revela a criatividade do seu fazer artístico. III Dentro do panorama literário de nossa época, a poesia de Paulo Plínio Abreu ocupa um lugar singular. É difícil classificá-lo entre as experiências do presente, sempre tão associadas a um fazer territorializado no qual a escrita é sempre a expressão de uma identidade. Acreditamos que “o primado da identidade, seja qual for a maneira pela qual esta é concebida, define o mundo da representação. Mas o pensamento moderno nasce da falência da representação, assim como da perda das identidades”[7]. É da falência do mesmo que jorra a poesia de Paulo Plínio, nave do nada sempre em movimento, se desloca, na velocidade das correntes marítimas, quase imperceptíveis, mas sempre indo. *** Há seguramente um caráter inovador na poesia de Paulo Plínio, uma abertura evidente que cintila na esfera das palavras, e nela a poesia dobra-se em fluxos de intensidades: “a luta do poeta não é / com o anjo,/ mas com o verbo”: A arte poética: A sua postura é singular, está deliberadamente fora dos clichês e dos axiomas da identidade: “As chaves do mundo / para sempre perdidas”: Fragmentos. Em Paulo Plínio a poesia de transcorre por fora de toda significação, rumo a uma direção própria: “Nau sem porto/ as águas te seduzem. Escrita líquida, Nave do nada feita e quase ave / desfeita em vôo puro”: O Barco e o mito. Nave que não se rende a sistemas ou arborescências, pois acontece exterior à gramática da representação, navegando pelas margens numa viagem em que não existe início ou fim, mas vontade do novo, num vigoroso processo de trabalho pela reinvenção da matéria escrita. Paulo Plínio combate em favor da palavra, descortinando em cada frase, fragmento, poema, imagens que compõem outra fisionomia; é um extraordinário caso de ruptura. Sua jornada acontece desviando-se dos pontos e fronteiras, avançando pelo meio do mar, do deserto, de um país estrangeiro; gerando afectos, trocas, devires. Assim, pelo meio, Paulo Plínio atravessa a superfície do contemporâneo expressando sua vontade de potência, sua força de criação. Nilson Oliveira. Editor da revista Polichinello; autor de (org.) Nietzsche/Deleuze: natureza/cultura (Lumme, 2011)
Texto originalmente publicado em Revista Polichinelo