Por José Leonardo Ribeiro Nascimento
Meu primeiro contato com o cultuado autor de Pastoral Americana, único escritor americano vivo a ter a sua obra definitiva publicada pela Library of America. Perguntava-me eu seria Philip Roth isso tudo?
É estranho, difícil mesmo, pensar que esse livro foi escrito em 1969. Quarenta e dois anos e o livro ainda parece bastante ousado. E a história de Alexander Portnoy, judeu bem sucedido profissionalmente que não consegue escapar da sua família, do ser judeu e que se ressente, principalmente, da educação repressora que recebeu. O reflexo disso? O onanismo, uma vida sexual totalmente desequilibrada, assim como são desequilibrados os seus relacionamentos afetivos.
Alexander Portnoy conversa com seu psicólogo. Todo o livro é uma longa conversa em primeira pessoa. E fica evidente que o objetivo do autor é que o livro seja todo devorado de uma só vez, em um só fôlego. O ritmo da história é perfeito, e a habilidade de Roth para contá-la como se realmente existisse um Alex Portnoy e ele estivesse abrindo seu coração é desconcertante de tão boa. Duas características são marcantes no texto: o linguajar pesado, de quem está mesmo diante de um psicólogo e não liga nem um pouco para o fato de haver ou não crianças na sala e o humor, o mais refinado senso de humor. Há bastante tempo não lia algo tão intrinsecamente divertido (no sentido de ser realmente engraçado) e bom ao mesmo tempo.
Enquanto se lamenta por não conseguir se desgarrar dos pais, mesmo já morando longe deles, e enquanto se odeia por se sentir culpado pelas atitudes que toma e que, via de regra, desagradam seus pais, como não casar, viajar sem avisá-los, não ligar com freqüência para eles etc., Alex Portnoy refaz o itinerário da sua vida tentando compreender onde reside a cura para seus problemas. Menino inteligentíssimo, um novo Einstein, como diziam dele seus familiares, sempre foi obcecado pela masturbação e quanto mais se martirizava pela culpa, mais se masturbava. Enquanto isso, a mãe e o pai, caricaturas judias, infernizavam sua vida, sempre podando, delimitando, freando, impedindo, fechando.
Há inúmeras passagens memoráveis, mas aponto abaixo apenas uma. Quem quiser mais, vá ao livro!
Eis que chega meu pai, após um dia agradável tentando vender apólices de seguro de vida a negros que nem têm certeza se estão mesmo vivos, eis que ele chega em casa e encontra uma mulher histérica e um filho metamorfoseado – porque o que foi que eu fiz, eu, a bondade em pessoa? Incrível, inacreditável, mas o fato é que dei um chute na canela de minha mãe, ou então a mordi. Não quero parecer que estou contando vantagem, mas realmente tenho a impressão de que fiz as duas coisas.
Ah! E Philip Roth subiu diversos degraus na minha lista de autores por conhecer. O próximo livro já está até comprado: Homem comum.
