Para hoje, só vos quero desejar um Natal muito feliz.

De mim para vós, deixo um singelo presente, um poema que escrevi, a pensar numa época diferente daquela em que nos encontramos.

No tempo dos tempos antigos

No tempo dos reis e rainhas

Havia numa rua direita

Uma casa de tabuinhas

Com uma porta muito estreita.

Era uma casa pequena

Que lá dentro albergava

Uma donzela morena

A sete chaves fechada

Tal como as outras meninas

Fossem princesas ou não

Sonhavam de pequeninas

Com quem lhes estendesse a mão,

Também esta donzela

Esperava que viesse vê-la

Soldado, rei ou capitão.

Naquela casa pequenina,

Na fresta de uma janela

Espreitava para fora a menina,

Por quem procurava ela?

Escondida dos muitos olhares,

Não era débil, nem feia

Tinha a beleza que a milhares

Fazia inveja alheia.

Presa do seu destino

Escondida pela loucura

Não havia ali valentino

Que dela andasse à procura.

Mas num dia de azar

Sem nada o fazer prever

Cai na palha que o chão cobre

Uma velinha a arder.

A donzela assustada

Não tendo como fugir

A sete chaves encerrada

Não poderia sair!

Sem saber como transpor

Aquela porta tão estreita

Cai no chão cega de dor

Grita, chorosa e desfeita.

Com medo, a soluçar

Não o viu quando chegou

Ouvia o fogo a estalar

Mas logo o barulho cessou

Sentiu que a levantavam

E o fresco da noite ela sente

Lá fora todos gritavam

“Que rapagão tão valente!”

Sua força não conhecia

Nem se achava valentão

Se havia nele valentia

Era só no coração.

Descansou enfim a donzela

Em seu peito encostada

Cega pelo fogo, mas bela

E agora, enfim, amada.