The Dolomites: the Ladin valleys/Italy Cycling Guide/divulgação
Conto
André Vieira
O vento corria pelas orelhas, levantadas no arrepio do colarinho e capuz de lã. A casa de madeira era iluminada por uma luz esquia, quase silente, que ajuntava os ossos da noite ao chamado da terra. Tremulo. Sibilo. Os pássaros punham-se a cantar falsas valsas frias enferrujadas, junto ao canto dolorido do galo anêmico. Levanto-me da cadeira de balanço retorcida em tempo e envelhecida de idade: estava morto. E mesmo assim, meu corpo se movia.
Naquela manhã um galho grisalho arranhava o céu como dedos sobre o lençol. Tomei o café como se fosse quinta-feira com âmbares dedos nos cigarros, olhos amargos no arado. Uma história inteira pra esquecer em sarrafo, no calor sudorífico, de pó a pó, adormecido em nós, em meus calos, resfolegado em meu tabuleiro cor de laranja. No campo, hortaliças consumidas pela neve e a chuva decepcionante cujo tempo só se sabe contar em frio. E falta.
O carretel da fome se desenrolava por aqueles dias. Na vila, não mais povoada que por dez, doze famílias farinhentas desde os primeiros saques galopantes; o regozijo de pão era pra quem havia contraído sorte em amnesie de culpa. Sim, não ter fome era quase como uma doença mesmo, da qual se invejava em cada janela encadeada e bater de dentes, seguidos de pequenos choros, curtas mesquinharias pulando boca afora quando o estômago rasgava de carne. Mães, pais, filhos, filhas, parentes se revezavam em manter a esperança acessa na fumaça espessa, enquanto se cultivava nos quintais a herança da fome. Ou em paredes puídas de encruzilhada reza.
Desde que chegamos, a vida tinha-me virado ao avesso. Trocara os hábitos de marinhos e os trajes de infantaria pelo gibão alto e as sandálias de couro cru. Meus traços, uma vez nobres de ingenuidade aventureira, se metamorfosearam em leves memorandos da jornada passada atravessada mil vezes pela agulha e costura de memória sobrevivente. Tonificara as pernas, os abraços, os ombros franzinos de leitura bibliotecária, e pelo encontro com o pó da terra e a malandragem perante mercadores auspiciosos, cultivara uma barba vistosa que impunha a seriedade afã. Fecharia a cara. Desencantaria o azedume. Resplandeceria o estribilho amargo de olhos sanguíneos, caso a minha sobrevivência fosse sentença de pronúncia: — “Terminamos?”, falaria.
Acerca dos demais não poderia fazer o mesmo. Desde que a chamas arderam em meu mestre e suas palavras, assim como suas cinzas, foram soltas na terra para cativar o melhor dos mundos possíveis, carrego-lhe comigo em poesia de silêncio. Já as mulheres da casa tinham desistido da prosa desde muito. Por vezes, o mistério de uma declaração não é em como a entendemos ou se há algum sentido naquele misto de vírgulas e exclamações reticentes, até então desconhecidos. Curiosamente, o segredo de uma frase, oração, pergunta vem logo após seu fim. Podemos interrogar-nos a quem for ou a quais ventos vierem o porquê do ponto taxativo; mas nunca saberemos, de fato, como o lápis gostou de repousar suas últimas palavras.
Sobretudo quando falamos de analfabetos funcionais de sangue azul.
Mas meu destino não é mais guiado por narizes grandes enfurnados em café boliviano. Quando muito, sua rede ainda me imobiliza na sua história ultramarina, em conquistas iluminadas, enredadas na superação e devoção sobre-humana; consumadas, entretanto, em minha carne como flagelo e sofrimento. Logo, se restou-me qualquer coisa de filosofia heroica ou ensinamento imortalizado entre os poucos sorrisos cândidos, é de sempre levar uma espada: fina, lânguida, afiada em cinta de açougue a fim de evitar qualquer linguarudo que tope pela frente. A menos que queira se tornar mais um indivíduo de coleção silente.
Meu relato emerge de culpa banhada por compromisso da sorte. E se delgada na mata e na floresta, atravessando bosques, circulando planícies em encontro uma única fogueira, uma parca centelha que acusa o redemoinho convergindo ao centro. Arrasto noites, espaço dias, encurto horas. O bom titereiro é regente de sombras, profundo conhecedor de sinas de madeira entre juntas de junco, cirurgião perspicaz de movimento e de membros, atento para o simples respiro de sal das ondas. Mas as trevas do mundo não encontram-se no seu coração. É a saber da fraude da vida circunscrita que, em seus movimentos precisos, se espelha n’oficio dos movimentos mais tênues contados numa roda. Ao passo que na vida desenlaça o frio de sua alma.
Tudo nasceu do desejo por laranjas. A vontade atiçou o açúcar no sangue, na indicação de horas d’água na boca. Sem cerimônia, deixei ante os pés as ferramentas de perseguição e modelagem, contendo-me na fumaça aureolada de pasto enrolado. Amarela cortisona em olhos pelados de fome. Arredei o chapéu dobrado sobre a cabeça queimada e perscrutei botas, pedras, lagartos, riachos e carvalhos em estrada batida de terra desencaminhada. Então, via os cheiros invadirem-me em línguas estrangeiras e perfumes rebuscados de outras partes do mundo.
Chegada sem alaridos, uma mulher me convidou à sua carroça, em praxe de bons costumes mercantis. Adentramos ao mercado, às voltas da torre tombada pelo tempo do relógio e prosa de gente muito importante; e, de súbito, aportamos para sua loja entre pequenos cães de guarda. De uma vista breve de amostragens grátis, veio o pedido:
— “A menos congelada, por favor”.
— “Hoje não trouxemos nada da horta”, disse reticente. “Mas se você quiser levar alguma guloseima doce ou um’aguardente do reino, posso te ajudar”, completou assomando qualquer relação alcóolica aos maltrapidos.
—“Sem laranja, sem negócio”, desconversei olhando fixo aos olhos acangaceirados sob pinturas negras.
— “Mas pense bem, Senhor”, relutou diante da recusa. “Você pode levar à fazenda e trocar por qualquer que te interessa”, sofismou ao puxar meu braço para cima e para baixo naquele incômodo claustrofóbico.
—“Veja bem”, disse-lhe mostrando a bainha sobre a camisa. “Não me interessa nada ou ninguém, só desejo o sumo abóbora.”
A mulher deu três passos pra trás e saiu correndo por onde entramos. Reacomodei com calma a lâmina sob o gabão, tornando fácil o manuseio, e após retomar os hábitos convencionais, ouvi um grito de gelar a espinha. O terror tremulava pelo ar como flutuavam asas de pequenos pássaros, em rota migratória. Em poucos segundos, o horror se amplificava aos corpos de todos os presentes no mercado, em movimento natural de matraca mortificada. Apertei as orelhas e pulei para debaixo do balcão, à espera do pior da assuada.
Mas em pouco instantes, o silêncio voltava a se escutar alto.
Nem crianças choronas, nem mercadores berrantes atrapalhariam o reino de paz meticulosamente instaurado junto ao inverno. Com um salto, volto o corpo sob as sandálias de couro e reatravesso o portal protegido pela estrela de David.
Irrompo na praça do relógio e vejo um homem pendurado por uma corda. Às suas cercanias, jovens, velhos, mulheres, crianças, protestantes, muçulmanos e católicos sentados sob os quadris, com olhos e bocas fechadas. Sob um sol âmbar, nebulado pela clareza da lua, caminho lentamente em direção do homem suspenso nos ponteiros hirtos do relógio: meio-dia e ainda nenhum sino, meia-noite e apenas a palidez de suas bochechas, meia vila reunida e nenhum gongo de alarde de seus companheiros.
Subo a torre e liberto a alma atada à corda. Apoiado sobre meu colo, fecho seus olhos com um tanto de receio inquisitório. Deito-o sobre as pedras que compõe o púlpito, geralmente habitado pela palavra manifestada em vida. Hoje não. Suspiro o peso fundo daqueles que se foram.
Em poucos instantes — embora, devo admitir que tenha sido alguns minutos, pois me ocupava em recuperar o corpo para o reino dos humanos — ouço, a cavalgadas, o reinício estrondoso da tormenta. Ao desvirar os olhos sem vida, me defronto com uma linha horizontal de cavalaria árabe.
Um berbere desceu da montaria e indicou, em riste, seu sabre à minha língua:
—“Por que ousa desafiar a lei de Deus, fazendeiro?”, escarou denotando alguma propriedade na língua turca.
—“E quem é você pra me dizer o que eu devo fazer, Senhor?”, afirmei me desvencilhando do corpo frio, entre os alaridos pávidos.
—“Isso não interessa-lhe, forasteiro. Por interferir no julgamento do Senhor, lhe tirarei a vida sem remorso.”, bramiu, levantando o sabre com o intuito me diferir o golpe na cabeça.
Em poucos lances, esquivei-me da lâmina do carrasco e retribui-lhe o ato promulgado com gentileza. A instantes, os outros cinco cavaleiros desceram os estribos e formaram uma fileira de ataques organizados, mesclando técnica e energia costumazes aos janízaros com os estilos antigos da velha Europa, ora austríaca, ora polonesa, ora húngara, ora francesa, ora portuguesa.
Um a um seus borques eram separados do corpo, junto a seus membros decepados das entranhas. Uma correnteza sanguínea banhava as pedras, as escadas, as tendas, todas batidas pelo sol escarlate de minha sobrevivência diante a paz de meus inimigos. Até suas barbas impecáveis e trajes suntuosos cuja mistura harmônica de cores, culturas e civilizações fora alvo de minha ira descarrilhada.
Fustigado, repousei os ombros apoiados na espada de prata e em joelhos combalidos pela carnificina. Ainda com os olhos vidrados pela adrenalina, vi um corvo pequeno, quase imperceptível como ave-mensageira reluzir o céu e estreitar as garras em meu corpo sanguinolento. Repousei a espada sobre os blocos de pedra e desenrolando um ínfimo pedaço de papel preso às pernas do pássaro, desvencilhei minha canseira em uma única frase:
—“Desculpe-me, amigo, eu falhei”.
Nesse mesmo instante ouço balbucios vindos de meu flanco. Retorno meu corpo em posição de batalha, mas nada de ver um opositor de pé retomando combate ou agonizando por ato misericordioso. Viro-me e deparo-me com o homem estendido, até então dado como morto. Reparo-o com minúcia em suas bochechas coradas e sua respiração ofegante, como se malpassado uma noite em claro no tabaco ou bebedeira infinita. Volto a me ajoelhar e agora com as mãos voltadas ao céu, exclamo, como a muito tempo não fazia aos quatro ventos:
—”Vivo! Ele está vivo!”