
Sempre gostei de álbuns conceituais. São álbuns que, além da música, apresentam também uma concepção geral de tema, uma coluna vertebral de assuntos, sobre os quais oscila a música em múltiplas variações. Bem feito, um álbum conceitual tem quase o mesmo valor de um livro, pois possui história, trama, mistério, personagens, todos os ingredientes de um bom livro.
Um bom exemplo de álbum conceitual é “Beethoven’s Last Night”, da Trans-Siberian Orchestra. A história que guia as músicas é singular: Beethoven acaba de completar a Décima Sinfonia (na realidade, esta sinfonia permanece incompleta). Neste momento, ele recebe a visita de Fate e do seu filho distorcido, Twist. Os dois anunciam que aquela é a última noite de Beethoven na face da Terra. Enquanto estão conversando, o demônio Mefistófeles aparece e faz uma proposta: Beethoven poderá manter a sua alma e sua vida se concordar em apagar toda a sua obra da história da Humanidade. Mefistófeles dá uma hora para ele pensar e sai da sala. Beethoven passa a xingar Fate (é uma mulher na versão em inglês, mas é o Destino), afirmando que ele teve uma vida miserável em troca da música que compôs. Neste momento, Fate permite que Beethove volte no Tempo e veja todos os eventos da sua vida, sendo que, se ele não gostar de alguma coisa, poderá mudá-la.
No primeiro momento, Beethoven revive uma história da sua infância, quando seu pai lhe esbofeteou após ele ter falhado em uma apresentação perante a corte. Ele pede para Fate apagar aquele evento. Ela concorda, mas avisa que precisará apagar a Sexta Sinfonia, pois tal fato da infância foi a inspiração para a existência de tal Sinfonia. Beethoven desiste de apagar este evento. A partir deste momento, Beethoven começa a perceber que qualquer evento que ele precise apagar da sua existência terá consequências funestas sobre a sua música.
Beethoven relembra um encontro que ele teve com Mozart (não sei se esta história é real, mas acredito que não seja), e este encontro está entre os seus momentos mais felizes. Aliás, a música que narra este encontro é duplamente fantástica: primeiro, os integrantes da TSO fazem uma música bem poética sobre Viena, com um piano que lembra a queda da neve. Em seguida, engatam a abertura de “O Casamento de Figaro”, de Mozart, em uma versão heavy metal, no melhor estilo Ritchie Blackmore.
A história fica um pouco surreal, pois passa a entrelaçar a vida de Beethoven com a trama do filme “Minha Amada Imortal”. Beethoven revê a história do seu amor por Theresa e descobre que ela também o amava e teria ficado com ele. Beethoven se deprime, percebendo que deixou a felicidade escapar entre os seus dedos. Fate joga pesado: mostra os milhares de músicos que irão se inspirar na obra dele por toda a Eternidade. Beethoven comunica que não modificará nada da sua existência e que recusará o acordo com o Diabo.
Mefistófeles chega. Quando toma conhecimento da decisão de Beethoven, tenta um outro acordo: se ele lhe entregar somente a Décima Sinfonia que terminou há pouco tempo, irá preservar a sua vida e alma. Como Fate gastou o seu melhor argumento, aparece outro deus ex-machina, para convencê-lo do contrário, o fantasma de Mozart. Novamente Beethoven recusa a oferta de Mefistófeles, que, apelando por completo, faz um golpe de extrema sujeira: aponta para uma criança que está passando na rua e diz para Beethoven que, se ele não entregar a Décima Sinfonia, irá torturá-la para sempre. Condoído, Beethoven aceita entregar a Décima Sinfonia para Mefistófeles, e faz um acordo com ele.
No entanto, não acabou ainda a sequência de baixarias, pois, ao tentar queimar o manuscrito da Décima Sinfonia, Mefistófeles percebe que ele não queima. Neste momento, Twist – que até então estava na reserva – diz que Beethoven na realidade foi o segundo filho nascido dos seus pais e que colocaram nele o mesmo nome do filho falecido, circunstância esta que anula o acordo, sabe-se lá por qual detalhe jurídico. É anunciado que o destino final de Beethoven será o Paraíso, por que Mefistófeles estava mentindo o tempo inteiro (um Diabo mentindo? Inacreditável!). Beethoven morre, sua alma sobe aos céus e Twist pega o manuscrito da Décima Sinfonia e leva com ele.
Claro que a história possui algumas falhas, um monte de clichês e uma pilha de conveniências ajustadas para que ela venha a fluir. Mas é interessante a idéia de que Mefistófeles, o Diabo do Fausto, apareça fazendo acordos megalomaníacos com Beethoven (até onde posso ver, Mefistófeles deve ser o único diabo que fala alemão, pois está sempre passando por aquela área). O gancho da Décima Sinfonia é igualmente instigante. No entanto, o que realmente salva o álbum é a música que costura esta história. A mente de Beethoven oscila entre diferentes músicas nesta última noite, e ele revive uma série de trechos das suas próprias músicas, além de trechos compostos por Mozart, por Chopin e até o “Flight of the Bumblebee”, de Rimsky-Korsakov (que foi composta em 1900, ou seja, depois de Beethoven ter morrido). A mente de Beethoven ainda está criando sons, refazendo trechos de música que já habitaram a sua alma, e está criando sons futuros que logo os compositores seguirão sozinhos. Muito interessante este efeito de colcha de mosaico: Beethoven, na última noite da sua vida, está sendo assombrado pelas músicas que inventou e antecipando, em um caleidoscópio de sons, outras músicas que poderia ter composto se a morte não tivesse chegado.
Eu poderia dizer que este álbum é conceitual em duas esferas diferentes: primeiro, na existência de uma história-guia de todas as músicas. Segundo, na construção da música da TSO com várias músicas de outros compositores, passando a ideia de anarquia mental e agitação interna de Beethoven. Uma oscilação muito bem realizada, gerando uma área de incerteza e um confronto constante. Mas nada disto funcionaria se a música não fosse boa e se as letras não fossem simples, mas diretas.