Pedro Nava em Bh/reprodução
Meu Pedro Nava seria agora muito menos trágico e ao mesmo tempo ainda mais triste do que o Pedro Nava que imaginava
Bruno Pernambuco
Durante dias ela esteve ali, intocada, ou então remexida, revisitada, novamente folheada, reamareladas suas folhas, mas retornando, inevitavelmente, tão plácida ao mesmo espaço exato, à mundanidade do seu trabalho, que é como se tivesse sido intocada.
Era a minha companheira de humilhação. Só a conhecia quando ninguém me podia ver. Como hóspede na casa, dela me ocupava quando ia me desocupar. A revista não tinha novidades. Era sempre a mesma, repetitiva, igual. Um desfile de madames aqui. Acolá um encarte especial do shopping, revendo um ano comercial.
Nas páginas mais dedicadas, resoluções para um ano-novo passado, trazidas por musas globais, por finas parágonas da moda e etiqueta, e- imagino, em nome do equilíbrio- por sua contraparte, escritores comedores, contemporâneos, sertanejos ou gaúchos, feiosos e conhecedores astutos dos segredos do orgasmo feminino (a julgar pela sua palavra, melhor até do que as próprias senhoras)
Entre a barricada de sobrenomes que, para alguém, deviam se supor ilustres, se encontrava um ou outro conhecido, uma pista, talvez, pensava, do porquê ter sido à minha companheira permitido, em primeiro lugar, ser esquecida no quarto de visitas. Na maior parte da viagem estive em paz com essa ignorância divertida do presente. Um dia, entre os anúncios, descobri a morte de Pedro Nava.
Não se passaram mais do que quatro páginas pretas, cheias de fotos de um aniversário ilustre, por onde passavam as grandes figuras da literatura da época, e atravessadas por uma propaganda do Boticário. Me parecia uma indignidade aquela morte passar tão somente, tão silenciosa, em meio à bobagem dos problemas já conhecidos. Era egoísta, também. Não suportava que ali se falasse em mistério cercando a figura, em injustiça, irresolução do crime passional, tudo isso não mais que em uma lamentação, sem sequer um grão de pista de algo de novo para a história.
Eu, que não conhecera Pedro Nava para além de uma sombra da memória, distante e me ainda sem forma, acompanhando as aventuras de juventude daqueles escritores mais queridos, de uma lembrança mais próxima, mais quente.
O homem, ainda que não tivesse rosto, me parecia um eixo, um centro- mesmo que ainda pouco conhecido. Me parecia, na minha imaginação das memórias meio contadas por seus parceiros, sempre presente, mesmo que quase não existisse. Enxergava nele aquilo que gostaria de enxergar nos meus próprios amigos. O ombro sempre aberto para as histórias repetidas. A mistura exata de bom humor e amargura para enxotar os excessos de sentimentalidade (que faziam desse meu escritor, além de bom amigo, o melhor conselheiro possível para um jovem autor). Me parecia alguém bom para conversar sobre as mulheres, e sobre as dores do coração.
Sua tristeza me dava agora uma nova fisionomia. Meu Pedro Nava seria agora muito menos trágico e ao mesmo tempo ainda mais triste do que o Pedro Nava que imaginava. Eu estava- poderia sê-lo em uma situação muito menos favorável, na cidade arruinada pela guerra, em que uma cadeira, inocente ou culpada, não sabemos a quem filiada, permanecesse diante de onde uma vez esteve a parede sustentando uma janela que lhe ditava a vista; ou então no casarão antigo, em que uma poltrona de feltro solto e pernas fracas, voltada para a avenida, mais vendo o movimento mais se aprofunda em seus próprios fantasmas- no trono que me cabia, fitando o passado em minha condição desagradável, de rei absoluto sob si.
Por esse direito triste e simplório de viver no presente, eu posso- mesmo que não me caiba direito a proferir uma única palavra sobre o ocorrido- amputá-lo. Posso julgá-lo sob os meus valores. Posso alterá-lo de acordo com o que me convém. A glória que foi a glória de Pedro Nava, e a tristeza que foi a tristeza de Pedro Nova posso transformá-las no que eu bem entender através de uma palavra que está viva no presente- esta foi a tarefa que sempre coube aos vivos.
Atonitei-me com a sensação gelada. “Que direito tenho eu pra dizer que estou vivo?”, me perguntava sem resposta, e nessas minhas palavras já afirmava o presente imerecido.
Pensei que com o meu personagem, que agora tão mais claro se fazia para mim, a memória toda morria. Pensei num fim acabrunhante não só para o grande escritor, sensível, valioso, cheio de humor, mas para toda a história que, numa antecamada de memória, se assume ter sido guardada por seu Baú de Ossos.
Pensei no fim de todas as palavras mortas.
“- Quem escreverá a memória do memorialista?”, é a única frase de efeito que permaneceu comigo da reportagem preta-e-branca, nostálgica, cheia de figurões desfilando pela cobertura de Copacabana, e ao mesmo tempo pesada e infelizmente institucional, sobrevoando o ocorrido sem uma única gota de lirismo dedicada à história ou aos seus personagens. Me fez pensar em como são os publicitários tranquilos, despreocupados. E em como talvez sejam os que podem fazer uma memória que nunca morre.