ENTRELINHAS || BUDAPESTE
literatura brasileira contemporânea, identidade e fragmentação, crise existencial, análise literária de romance
Fotografia da minha autoria«Talvez o mais belo dos três livros da maturidade de Chico»O curso da vida leva-nos a palmilhar rotas desconhecidas, que nos desarmam e que tantas vezes nos fazem reconsiderar o seu sentido, quase como se fossem um teste à nossa lealdade e ao nosso discernimento. Por outro lado, é este traço imprevisível que nos mantém em movimento. E foi por este princípio que, a caminho da Feira do Livro do Porto, em 2020, aceitei a sugestão da Rita da Nova e adquiri um livro de Chico Buarque.«Quando se abriu um buraco nas nuvens, me pareceu que sobrevoávamos Budapeste»Budapeste permite-nos acompanhar um ghost writer em atividade, vendo-o dividir-se em realidades paralelas, com idiomas, amores e cidades distintos. Inclusive, a própria personalidade aparenta fragmentar-se, explorando camadas, até então, impensáveis - ou, apenas, reprimidas. Perdido de encanto pela língua húngara, José Costa, o nosso protagonista, abre-nos a porta para um jogo de duplos e de opostos, ao mesmo tempo que procura compreender o impacto que todas essas mudanças têm no seu quotidiano e no seu futuro.«Passava os dias catatônico diante de uma folha de papel em branco»A escrita do cantor e ficcionista tem música e poesia. Numa narrativa simples, cruza abismos, sentimentos complexos e acontecimentos que nos deixam no limbo, até porque colocam em causa valores humanos. Mas a leveza com que o faz consegue serenar-nos, ainda que não tente romantizar qualquer detalhe. Assim, prendendo-nos à sua dualidade, enfrentamos uma crise existencial e criativa. Refletimos sobre as escolhas que fazemos. E equacionamos o poder do compromisso e o respeito com que tratamos e cuidamos [d]os outros.«Mas duas pessoas não se equilibram muito tempo lado a lado, cada qual com seu silêncio»Budapeste é um labirinto emocional, que ultrapassa fronteiras geográficas, enquanto cria barreiras entre relações débeis. E é nesta dicotomia que percebemos que, por maiores que sejam os planos, a sensação de desajuste mantém-se, porque permanecemos incompletos, procurando preencher o vazio que habita em nós.«O som que ainda agora me irritava foi me apaziguando, e no seu embalo adormeci»// Disponibilidade //Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada pelo apoio ♥
Texto originalmente publicado em Entre Margens