Narrativa da escritora argentina Selva Almada segue os cursos de um rio
literatura argentina, análise literária, realismo mágico, morte e luto, mitologia
Nas águas que circundam um vilarejo argentino, não encontram monstros de proporções homéricas, mas as suas réplicas que sofreram uma espécie de rebaixamento – ou se adequaram ao mundo interiorano, diminuindo de tamanho, mas mantendo o aspecto misterioso. Laura Pilan Em Não é um rio, a prosa de Selva Almada tem a cadência de um curso d’água. Trata-se de uma narrativa tortuosa, fragmentada e imprevisível, mas fluida e, de alguma forma, familiar. O enredo cria raízes na terra úmida e se nutre do passado, das leis primevas e dos velhos costumes. Sinuosa, instigante e perigosa – não se conhece a profundidade dessa história até que se tenha afundado nela. Na epopéia, a primeira palavra escolhida por um poeta serve como orientação. A Odisseia de Homero se inicia em “andra” – ou seja, “homem” – porque essa é a sua matéria: a jornada de um herói excepcional. De maneira semelhante, Não é um rio começa com um nome próprio: Enero Rey, um protagonista que, em um barco, chega em uma ilha com seus companheiros. Os objetivos são modestos: uma pescaria tranquila e um acampamento à margem do rio – como eles costumavam fazer antes da morte de um grande amigo. Para ocupar a lacuna deixada pelo falecimento de Eusébio, há Tilo – um adolescente ainda ingênuo em suas arestas. Nas águas que circundam um vilarejo argentino, não encontram monstros de proporções homéricas, mas as suas réplicas que sofreram uma espécie de rebaixamento – ou se adequaram ao mundo interiorano, diminuindo de tamanho, mas mantendo o aspecto misterioso. Caríbdis toma a forma de uma arraia assassinada aos tiros e resquícios da feiticeira Circe podem ser enxergados em Siomara, mulher de passado trágico, afeita ao fogo e rodeada por presenças espectrais. Os fantasmas são suas filhas – que podem ou não estarem mortas. Tal qual era esperado do mundo clássico, a violência exerce um papel fundamental nesta história: é o que castiga uns e une outros, o que motiva e o que também faz sucumbir. A brutalidade não só orienta as relações entre sujeitos, mas também organiza a sociedade e é bem recebida pelo cenário e suas criaturas misteriosas – seres e entidades que habitam os sonhos e pesadelos, fazendo com que os personagens e os leitores percam a noção do que é real. A ilha se alimenta do que é místico e os misticismos se nutrem da ilha em proporções equivalentes: é provável que um não exista sem o outro. O lugar parecia estar adormecido até que Enero, Tilo e Negro abalam seu instável equilíbrio. Os estrangeiros são provocadores do conflito e parece que a ilha os reconhece como forasteiros, de modo que forças misteriosas criam um jogo de cabo de guerra: há algo que os atrai e os puxa para dentro e outra coisa, oposta e igualmente enigmática, que deseja expulsá-los. O deslocamento do trio é enfatizado pela falta de compreensão da região como o organismo vivo e poderoso que é: “(…) não é um rio, é este rio” – um elemento natural munido de especificidades, com o qual os moradores nutrem uma relação de igualdade. As águas, os animais e os homens são todos vizinhos. A morte da arraia pelas mãos – e arma – de Enero marca o fim de uma frágil estabilidade. O que há de perpétuo é o silêncio. A quietude que é propícia para a pesca é igualmente oportuna para a escrita – muitas vezes a composição de um romance depende dela. De maneira semelhante, ela sustenta as relações entre as pessoas: se viessem à tona, os segredos destruiriam as amizades que, em Não é um rio, possuem mais legitimidade do que os laços de sangue – afinal, foram escolhidas e não impostas. Se uma história não pode ser contada, é possível que também não possa ser compreendida. É possível que essa obra seja o vislumbre de algo secreto, que jamais poderia ser plenamente entendido se não fosse colocado no papel. Selva Almada não nos garante o esclarecimento, mas oferece a confissão. Na jornada de um herói épico, o final é conhecido antes mesmo de acontecer. A fama, a glória e a morte caminham juntas e, do outro lado, há o esquecimento que acompanha uma vida pacífica. Em Não é um rio, não há certezas como essa – nem mesmo sobre vida e morte, os dois aspectos imutáveis da existência humana. A suspensão desses pressupostos dá lugar a outras preocupações: o foco está no que não pode ser visto, como os laços entre pessoas, que estão condenados a permanecerem unidos ou serem drasticamente rompidos – e consumidos pelo fogo.
Texto originalmente publicado em Revista Fina
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