Monkeys/Andy Warhol

Um macaco, provavelmente foragido de algum zoológico, dedilhava curiosamente em uma máquina de escrever abandonada na praça

Leonardo Saad, Especial para Fina

Aqueles dedos datilografavam velozmente cada palavra. Se já não soubessem quem o fazia, pensariam se tratar da maior expressão de criatividade até então demonstrada por uma mente viva, teriam certeza que aquelas palavras eram meticulosamente escolhidas, cada vírgula pensada com milimétrica precisão seria um exemplo imaculado do exercício cognitivo da criação. Ou ao menos, se trataria de um incrível exemplo de perfeita memorização, qualquer pessoa reproduzindo a Odisseia de Homero sem nenhuma consulta seria um ato impressionante em si, mas aqueles dedos peludos cuja escrita deveria ser fruto da mais pura aleatoriedade do comportamento animal tornava o desenrolar da cena inacreditável.

A priori, as pessoas se reuniram ao redor pela simples graça da cena: um macaco, provavelmente foragido de algum zoológico, dedilhava curiosamente uma máquina de escrever abandonada na praça. Em sua inicial lentidão relutante, o animal, que mal havia terminado a primeira e única página contida na máquina via a multidão, já chegava a uma dezena de pessoas. Dentre curiosos, um homem de longe percebeu que havia um padrão naquelas palavras. As letras não eram meras aleatoriedades produzidas pelo clicar de um ser irracional em uma máquina de escrever. Conscientemente ou não, aquele primata cobriu metade da página com palavras bem formadas, consoantes e vogais que pareciam seguir uma lógica. Ao ter clareza da situação, o homem gritou para o resto do grupo: “O macaco está escrevendo algo! Alguém traz mais folhas!”. Uma mulher que morava ali ao lado correu até sua casa e buscou algumas. Na volta, já ofegante,entrego ao homem que se aproximou cuidadosamente do animal. Esse, por sua vez, não se abalou, estava concentrado demais em sua nova tarefa. . O homem então se sentou próximo da máquina de escrever, de modo que a cada página terminada pudesse fazer a substituição para o animal.

Logo uma página tornou-se duas e duas se tornaram cinco, e as onze folhas da Moradora da Casa Número 12 da Rua da Praça começaram a acabar. No momento em que o macaco completava a 19° página, o Proprietário do mercadinho da Rua Joaquim Silveira trouxe uma caixa de folhas sulfite e posicionou-a logo ao lado do Assistente do escritor. Enquanto ia trocando as folhas para o macaco, o homem organizava o impressionante texto que estava se formando e começou a ler em voz alta:

“Canta, ó Musa, o varão que astucioso,

Rasa Ílion santa, errou de clima em clima,

Viu de muitas nações costumes vários.

Mil transes padeceu no equóreo ponto,

Por segurar a vida e aos seus a volta;

Baldo afã! pereceram, tendo insanos

Ao claro Hiperiônio os bois comido,

Que não quis para a pátria alumiá-los.

Tudo, ó prole Dial, me aponta e lembra.”

-É a Odisséia! – gritou uma voz ao fundo a multidão que agora já devia ter mais de 100 pessoas .

-É o que? – respondeu o Assistente

-A Odisséia, o poema épico de Homero.

Caminhando para a frente da multidão que estava ao redor daquele espetáculo apareceu um homem barbudo, era o Professor de Literatura da escola municipal. – O macaco está escrevendo a Odisseia de Homero!

O Professor se aproximou cautelosamente do Assistente, e como se seu toque fosse capaz de despedaçar as folhas, pegou lentamente os papéis que continham texto redigido. Enquanto lia cada uma daquelas dezenas de páginas já carimbadas por letras, ficava atônito.