Ramon Amorim

Créditos da imagem: Jorge Bordello, Efavirenz, 2021.

Quando Alexandre Nunes de Sousa elaborou sua sistematização daquilo que chamou de “narrativas pós-coquetel” apontou caminhos percorridos pelas produções que eram lidas como pertencentes a essa vertente da literatura sobre HIV e aids. A descentralização da imagem da morte talvez seja o elemento mais forte que marca essas narrativas e ela somente foi possível, na literatura e na vida, pelo advento da descoberta de terapias efetivas calcadas em medicamentos antirretrovirais.

Assim, a produção pós-coquetel aponta para três possibilidades: a descentralização ou apagamento da temática da epidemia, a publicação de narrativas da memória do período mais agudo da emergência da aids e o aparecimento de relatos (muitos autobiográficos) sobre como é viver com uma condição crônica. A maioria dos textos que abordam a temática, a partir dos primeiros anos do Século XXI, costuma seguir um desses caminhos.

Considerando um olhar historiográfico sobre a produção que tematiza a epidemia, amparada pelos acontecimentos desencadeados a partir dos primeiros anos da década de 1980, uma questão se coloca: é possível identificar uma obra que possa ser tomada como o marco inicial das “narrativas pós-coquetel” no Brasil?

Essa questão não é respondida por Alexandre Nunes de Sousa devido ao seu interesse em discutir o assunto a partir da produção literária e audiovisual dos Estados Unidos. É por isso que o romance As Horas, de Michael Cunnimgham, lançado em 1999, além de duas obras sobre a temática escritas por Armistead Maupin são consideradas precursoras.

Em relação ao contexto brasileiro, não se estabeleceu um consenso sobre a narrativa que dá início a essa abordagem no país. As “narrativas pós-coquetel” no Brasil começaram a tomar forma a partir do conto “Depois de agosto”, de Caio Fernando Abreu, lançado em 1996, e do relato de Valéria Polizzi, Depois daquela viagem, de 1997. As duas obras apresentam referências aos medicamentos antirretrovirais disponíveis naquele momento, porém ainda pouco efetivos por serem utilizados individualmente. É somente no romance As iniciais, de Bernardo Carvalho, publicado no ano de 1999, que o termo “coquetel” e a indicação do uso de várias pílulas para o tratamento do HIV aparece:

“como condição para continuar vivo, abriu a mochila e começou a tirar vários frascos plásticos e de dentro deles várias pílulas que ia colocando num outro frasco menor antes de engoli-las todas. […] Na manhã seguinte, ele repetiu o mesmo ritual do coquetel de remédios”

Minha pesquisa não é essencialmente historiográfica, mas como lida com a tensão entre as representações sociais da doença e do vírus e os modos como são representados literariamente,  é interessante se perguntar como acontecimentos fora do campo da produção narrativa, como as descobertas de medicamentos importantes, se relacionam com a abordagem do tema nas obras analisadas.