![]() |
| Fotografia da minha autoria |
Tema: Um livro colorido
As estações frias levam-nos os raios de sol constantes, que aquecem a alma. Porém, como moeda de troca, abrem-nos a gaveta das mantas e das roupas por camadas. Contrariamente aos primeiros meses de outono, que explodem numa paleta de cores deslumbrante, novembro tem uma imagem mais cinzenta, mais monocromática. Portanto, para inverter essa tendência, o tema mais recente de Uma Dúzia de Livros transborda vivacidade, porque nos desafiou a selecionar um livro colorido.
Observando a estante que prioriza obras da minha infância - e de literatura infantil adquirida durante a minha formação académica -, senti que deveria tornar a escolha mais intimista e, por isso, aventurei-me num exemplar que é colorido na capa. Nas ilustrações. E nas narrativas que têm todas um elemento comum: o Porto como cenário de fundo. Contos da Cidade das Pontes é um projeto com coordenação de José António Gomes, mas são 13 os escritores que deram asas à imaginação, incitando-nos a sonhar. A «enlaçar as duas margens do Douro». E a abrir os braços: para acolhermos, para descobrirmos e para sermos descobertos, nesta partilha infinita de gentes e de cultura.
Esta coletânea de textos convida-nos a conhecer o Porto - turístico e familiar -, revisitando a Ribeira, o Morro da Penaventosa, a Torre dos Clérigos, a Praça da Liberdade, a Fontinha, a Praça da República, o Velho Bazar dos Três Vinténs, o Jardim de S. Lázaro, a Rua de Santos Pousada, a Biblioteca e o Castelo do Queijo, com o mar num plano paralelo. Em cada página sentimos, então, o pulsar da Invicta, «embrenhando-nos nas ruas e vielas que tantas histórias têm para contar», quer aos locais, quer a quem chega de fora. E são estas memórias inesgotáveis, intemporais e inesquecíveis que nos aproximam. E é, inclusivamente, assim que recordamos a magia do Douro, do granito, da «luz coroada pela neblina» e do «pôr-do-sol visto da Foz».
Contos da Cidade das Pontes adquire um simbolismo de união, estreitando laços e sentimentos que impulsionam esse traço hospitaleiro, tão próprio dos portuenses. Além disso, exaltam-se os desejos, o amor, o passado, o futuro e os recantos pitorescos. Com um toque de humor e de nostalgia, somos transportados para contextos e situações peculiares, conhecendo personagens - humanas ou animais - únicas, que vão desvendando pormenores históricos nas suas entrelinhas. Na mesma medida, mostram-nos a essência que a diferencia. O sítio onde nascemos fará sempre parte da nossa identidade. E, ainda que eu seja do outro lado do rio, esta também é a minha casa.
O Porto é imenso. E, no desenrolar da obra, visualizamos outro retrato da alma desta cidade coberta de clarabóias. Mergulhar nas suas palavras é permitirmo-nos ser arrebatados. Porque este lugar-coração é mágico. E é uma autêntica ponte, mantendo entreaberta a esperança. E o dialeto acolhedor de quem o conhece como a palma da mão.
Deixo-vos, agora, com algumas citações:
«E, com aquele movimento de vaivém, acalentava o seu sonho. O seu pensamento não estava ali...» [p:7];
«- Olha ali, que coisa linda! O que é?
- Ora, é uma simples clarabóia da escada de um prédio vulgar.
- Pois não há dúvida, é bem bonita, assim redonda, com vidros de cor em ferros forjados! E vejo ali outra lindíssima, e outra, tantas a brilhar ao sol!» [p:13];
«Ninguém sabia, mas aquele peixe estava apaixonado por uma flor da margem. Saltava para a poder ver e para sentir o perfume dela espalhado no ar» [p:41];
«Gostava de te ver, amanhã à noite, na rua onde nasci, para te mostrar como os sítios onde a gente nasce fazem parte de nós e são sempre bonitos, mil anos que a gente viva» [p:56];
«- Então, o macaco é poeta? Ora, Miguel...
- E chama-se Camiões.
- Queres dizer Camões...
- Não, Camiões, Camões era o outro, o homem que escreveu Os Lusíadas» [p:86].
