Inovador Wilde
Literatura Irlandesa, Modernismo, Gótico, Crítica Literária, Oscar Wilde
imagem/reprodução Em ‘O Fantasma de Canterville’ Oscar Wilde traça retrato que antecipa a modernidade literária e a dinâmica de poder entre as sociedades de língua Giovana Proença Antes de James Joyce situar sua Modernidade literária com Leopold Bloom, herói moderno que se depara com monstros ocultos no cotidiano das ruas da metrópole, marcada pelos primórdios do século XX, e o surgimento de uma nova burguesia urbana; a Irlanda teve Oscar Wilde. O polêmico autor se encontrou no retrato de um verdadeiro lorde de pose aristocrática, à postos para inovações nos escritos das terras verdes, estendidos por toda a tradição de língua inglesa, ao revelar o contraste entre a Inglaterra vitoriana e a Estados Unidos em ascensão. O traço de distinção fundamental entre Wilde e seu sucessor como mais notória figura literária irlandesa, se coloca a partir da fuga à regionalização. Joyce se fecha nas ruas de Dublin, como em Ulisses e em sua coletânea de contos Dublinenses, fator que se abre na viagem de autoconhecimento e busca de Stephen Dedalus em O Retrato do artista quando jovem, e na saída do próprio escritor da Irlanda. Mas Oscar Wilde vai além, sua obra pinta um retrato da sociedade inglesa, pincelando comunidades de falantes da língua, como a norte-americana na conquista por relevância, um século após a Independência. Frequentador do mundo de devassidão que a estrutura puritana inglesa se esforçava por ocultar, Wilde era explorador das facetas do mundo renegado e alternativo, e não se censurava de retratá-los em seus escritos, em glória ou decadência. Embora mais conhecido por O Retrato de Dorian Grey, outra obra de Wilde se eleva como retrato de sua linguagem aguda: O Fantasma de Canterville. Apesar do título com potência para o mistério e o terror, a narrativa afia-se pelo humor; quase podemos ver o escritor escrevendo-o às gargalhadas, enquanto se serve do malte irlandês. A comicidade se expressa na premissa: um fantasma incapaz de empenhar seu ofício, assustar e causa medo. O fantasma trata-se do Sr. Canterville, amaldiçoado por assassinar a esposa. A novela é uma paródia do gótico, célebre gênero dentro da ficção inglesa. Notório no século XVIII, e com ecos no XIX, o gótico emerge nas narrativas europeias, com destaque no inglês para nomes como Mary Shelley, Robert Louis Stevenson e Bram Stoker; além do próprio Wilde que bebeu da fonte em sua magnus opus. No caso d’O Fantasma de Canterville, surge uma divertida paródia do gênero, passado em casarões, castelos e abadias. A subversão já havia sido experimentada por Jane Austen em A Abadia de Northanger (1818). Embora o gótico tenha sido artíficie de inúmeros procedimentos estéticos na veiculação de aspectos psicológicos, políticos e ideológicos dentro da ficção; a paródia de Wilde figurou passos em direção às inovações do moderno que se aproximava em passos tímidos. As artimanhas do fantasma em assustar a família norte-americana recém instalada na mansão não encontram reverberação, na atitude essencialmente científica dos moradores, que consideram um certo charme a presença da assombração. O Novo Mundo e a a racionalidade travam duelo com o mundo inglês, essencialmente arraigado em suas tradições e no apego histórico ao passado glorioso e aos progressos da Era Vitoriana. Os Estados Unidos em ascensão ameaçam esse mundo tão bem originalizado em seus eixos imperiais, e cujos rastros fantasmagóricos, não mais assombram a antiga colônia americana. Oscar Wilde antecipa a diminuição do poderio imperialista inglês, com o surgimento do Estados Unidos como potência global no século XX. Oscar Wilde é um prosador no sentido marcado da palavra. A fluidez de suas linhas ganham força com a comicidade e o humor irlandês despejados em Canterville Chase; a irremovível mancha de sangue de Lady de Canterville são, não apenas os vestígios do tradicionalista mundo inglês, mas também a inegável presença de Wilde nos prestigiados cânones literários. Inovador, seus textos figuram a frente de seu tempo, junto de suas visões turvas de modernidade. O retrato do mundo antigo se deteriora pelo olhar de Wilde, enquanto a potência norte-americana do Novo Mundo mantém-se jovem e cheia de frescor. Publicado por Giovana Proença Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença
Texto originalmente publicado em Revista Fina