Há uns dias passámos no Casa dos Poetas um poema de Nuno Júdice. Trocámos depois alguns mails com os nossos leitores e discutimos um pouco a obra deste poeta natural do Algarve. Concordo com aqueles que dizem que o Júdice faz, nas suas obras, um "irresistível apelo ao público feminino". De facto isso acontece, não sei se naturalmente ou por exigências ou conselhos editoriais. Todavia, fora daquela poesia mais romantizada ou até intelectualizada que menos nos agrada (em que o expoente disto é o blogue do próprio Nuno Júdice), há poemas do autor que fazem dele, em nossa opinião, um excelente poeta. Na Casa dos Poetas seleccionámos dois poemas do livro Geometria Variável que espelham, segundo cremos, o que acabámos de dizer:
CENA DE INVERNO
Parada no meio do campo, na tarde de chuva,
a mulher não avança para o meio da estrada, nem recua
para perto da casa. Apanha chuva, com a cabeça virada
para o chão, como se esperasse que a terra a engula,
ou que o céu se esqueça dela, e as nuvens se afastem.
Numa tarde de chuva, no meio do campo, há mulheres
que não sabem para onde ir; e entre a casa e a estrada
ficam paradas, ouvindo o ruído da chuva, e pensando
na vida que as levou para o meio do campo, indecisas
entre a terra e o céu, enquanto a chuva não pára.
Ao ver a mulher parada no meio do campo, pensei
em chamá-la, para que saísse de dentro da lama; mas
continuei o meu caminho, como se ela não existisse,
sabendo que se parasse ao lado dela também eu olharia
para o chão, até que a terra me engolisse.
IMAGEM DO MUNDO
Vejo o mundo. E ao ver as coisas do mundo,
com a sua realidade própria, vejo também
a diversidade que existe em cada coisa,
distinguindo-a, múltipla ou plural.
como se diz. No entanto, o que eu vejo
é sempre igual ao que eu penso
que o mundo é; e tudo se torna
semelhante, dentro deste mundo que é
o meu, e é sempre diferente do mundo que
existe no pensamento de outro. É por isso
que não penso nas coisas do mundo como
se fossem minhas; e que o deixo para os outros,
para que eles façam o mundo como quiserem,
para que seja diferente do meu, quando o
olho, e o que vejo me restitui o mundo
como eu o quero, diferente do mundo que
os outros pensam.
Nuno Júdice
Geometria Variável
Lisboa Abril 2005