A Play for Voices.

Esta é uma obra bastante singular, não sendo nem uma peça nem um poema, mas uma obra escrita como peça de rádio para a BBC. Small town Gales - e se small town America sempre funcionou para mim, um dia na vida da sonolenta cidade de Llareggub, Gales, não ficou atrás.

Gales sempre me fascinou. Desde os dragões, ao sotaque, aos castelos, ao Very Annie Mary que continua a ser dos meus filmes preferidos, à língua incrivelmente bizarra - aos 15 anos gostava de dizer a palavra Cymru repetidamente e não vou deixar que me digam que isso é estranho. Pode ser o patinho feio da Grã-Bretanha, mas fascina-me mais que a Escócia e não tenho vergonha de o dizer.

Portanto acordamos numa pequena cidade galesa onde, à boa maneira das cidades pequenas, todos têm um segredo, todos têm fantasmas e esqueletos no armário (ao menos não têm esposas no sótão), a escrita é simples, as palavras fluem maravilhosamente - quase sem uma pausa para pensar ou respirar, porque esta é uma peça para vozes, e as vozes seguem-se umas às outras, o narrador e as personagens, e o ritmo único leva-nos através de um dia, um dia na vida de Llareggub (bugger all ao contrário), numa visita guiada por esta pequena cidade onde vemos as pessoas, que maioritariamente se odeiam entre si mas estão ali, presas por memórias e pelos mesmos fantasmas que já mencionei.

MR EDWARDS

I am a draper mad with love. I love you more than all the

flannelette and calico, candlewick, dimity, crash and merino,

tussore, cretonne, crepon, muslin, poplin, ticking and twill

in the whole Cloth Hall of the world. I have come to take

you away to my Emporium on the hill, where the change hums

on wires. Throw away your little bedsocks and your Welsh

wool knitted jacket, I will warm the sheets like an electric

toaster, I will lie by your side like the Sunday roast.

E somos voyeurs nesta cidade repleta de pessoas simples, do capitão de navios assombrado por afogados e amores passados, as crianças que sem quererem são cruéis, o desejo de namorados, a mulher que parece só servir para ter filhos, dá vontade de ouvir a peça além de simplesmente a ler, pois somente ler acaba por saber a pouco.

CAPTAIN CAT

I'll tell you no lies.

The only sea I saw

Was the seesaw sea

With you riding on it.

Lie down, lie easy.

Let me shipwreck in your thighs.

E há a professora, e o carteiro, e a mulher duplamente viúva presa entre os seus dois maridos e o homem que quer envenenar a esposa.

MRS PUGH

Persons with manners do not read at table,

FIRST VOICE

says Mrs Pugh. She swallows a digestive tablet as big as a

horse-pill, washing it down with clouded peasoup water.

[Pause:]

MRS PUGH

Some persons were brought up in pigsties.

MR PUGH

Pigs don't read at table, dear.

FIRST VOICE

Bitterly she flicks dust from the broken cruet. It settles 

on the pie in a thin gnat-rain.

MR PUGH

Pigs can't read, my dear.

MRS PUGH

I know one who can.

FIRST VOICE

Alone in the hissing laboratory of his wishes, Mr Pugh

minces among bad vats and jeroboams, tiptoes through

spinneys of murdering herbs, agony dancing in his

crucibles, and mixes especially for Mrs Pugh a venomous

porridge unknown to toxicologists which will scald and

viper through her until her ears fall off like figs, her

toes grow big and black as balloons, and steam comes

screaming out of her navel.

MR PUGH

You know best, dear,

FIRST VOICE

says Mr Pugh, and quick as a flash he ducks her in rat 

soup.

São personagens que ficam - na minha curta experiência no género, todas as personagens de cidades pequenas ficam. E a linguagem, o som das palavras, o prazer em ler cada palavra e lê-la mesmo para dentro, o passar do tempo e as marcas que ficam.

4/5

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