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| Fotografia da minha autoria |
«Reler um bom livro é como deslumbrar
várias vezes uma bela paisagem»
A vida parece sempre curta, tendo em conta os livros que mantemos em lista de espera, para, um dia mais tarde, nos perdermos nas suas histórias. No entanto, já aceitei o facto de essa realidade ser inatingível, uma vez que há novas obras a aparecer e a despertar a nossa curiosidade. E, talvez por isso, tenha abraçado as releituras com tanta naturalidade, mesmo não sendo uma prática recorrente. A minha prioridade são os exemplares que ainda não li, porém, como em tudo no nosso percurso, é preciso reconhecer o benefício da dúvida e ser capaz de atribuir segundas oportunidades - inclusive, literárias.
Um dos grandes dramas de um leitor passa por decidir continuar ou abandonar um enredo que não esteja a ser completamente satisfatório. Há quem consiga tomar essa decisão com mais frieza, mas eu tenho tendência para prolongar o contacto, pois preservo a inocência de ser surpreendida. Já para não mencionar que não iria aguentar permanecer na dúvida. Ainda assim, compreendo quem avance para outras opções. Afinal, o tempo é demasiado precioso para ser desperdiçado em vão. Mas eu rumo para o lado oposto, até porque, quase sempre, consigo retirar lições valiosas, mesmo naqueles livros que aparentam não nos acrescentar algo. Em consequência, assumimos outro dilema: devemos ou não retomar aquela leitura? Será que valerá a pena o investimento? Ou será um desperdício de energia? A resposta dependerá, incontornavelmente, de cada um. É uma escolha íntima, pois movemo-nos por propósitos muito distintos. O importante é percebermos que aquela deliberação corresponde à nossa verdade, mantendo-nos fiéis ao caminho que traçamos por entre palavras escritas, que nos permitem sonhar.
Pessoalmente, considero benéfico regressar a obras que nos deixaram no limbo, sobretudo, quando sentimos que existiram fatores externos a condicionar o compromisso que estabelecemos com a mesma. E eu tenho dois exemplos que encaixam nesta problemática: Amor de Perdição [Camilo Castelo Branco] e O Modelo [Lars Saabye Christensen]. O primeiro foi uma leitura imposta, no décimo ano, quando eu ainda não tinha despertado genuinamente para esta arte que nos alarga horizontes. O segundo foi influenciado negativamente por todo o trabalho académico que tinha para desenvolver. Em ambos os casos, não consegui relacionar-me com a narrativa. E, por essa razão, pairou sempre a incerteza no real motivo desse fim. Portanto, logo que me senti com a predisposição certa, voltei a mergulhar nas páginas destes manuscritos. A conclusão a que cheguei não deixou de ser curiosa, porque rendi-me por completo ao livro de Camilo Castelo Branco e entendi que, de facto, O Modelo ficou aquém das minhas expectativas.
Acredito, cada vez mais, que para cada obra literária há um momento e um estado de espírito adequados. E que não é grave se nos cruzarmos na ocasião menos apropriada, desde que não fechemos a porta de um possível reencontro. Porque existirá sempre tempo para tal, ainda que nos dediquemos a uma corrida pela novidade. Como em tudo na vida, é uma questão de organização. De saber priorizar. De saber ouvir a nossa vontade, pois há alturas em que o nosso coração pede a familiaridade de histórias que conhecemos como a palma da nossa mão. E da mesma maneira como não hesitamos regressar a locais onde fomos felizes, não devemos excluir as histórias que nos preenchem a alma, apenas porque já as lemos uma vez. Há sempre mais mundo nas entrelinhas.
