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Às vezes, quando os livros têm muito hype fico de pé atrás com receio que não correspondam às expectativas. Mas a «Impostora» de R. F. Kuang tem uma premissa demasiado interessante para me passar ao lado.

Athena Liu é uma escritora chinesa adorada no mundo literário e June Hayward é uma escritora não chinesa com muito pouco sucesso. Quando Athena morre num acidente à frente de June, esta não resiste a roubar-lhe um manuscrito não publicado sobre o papel dos chineses na Primeira Guerra Mundial, editá-lo e publicá-lo como se fosse seu sob o nome ambíguo de Juniper Song.

É um livro cheio de humor negro que levanta muitas questões sobre o mercado editorial, nomeadamente quem tem o direito de contar certas histórias: será que June, não sendo chinesa, tem o direito de contar uma história sobre os trabalhadores chineses na Primeira Guerra Mundial? Esta questão tem sido levantada com outros livros como o «Terra Americana», um livro sobre os imigrantes mexicanos que fogem para os Estados Unidos escrito por uma americana. Eu acho que deve haver liberdade para escrever. Mas, por outro lado, também nos cabe a nós enquanto leitores procurar vozes diversas que, durante décadas, foram completamente ignoradas no mercado editorial.

Depois também há outra questão importante abordada no filme «American Fiction», de que gostei muito. Aqui temos um escritor negro com uma vida banal, mas aquilo que escreve não tem qualquer sucesso. Então, decide escrever uma sátira que está convencido que não chegará a lado nenhum. Escreve um livro com todos os estereótipos de ser negro, sobre ter estado na prisão, ter feito tatuagens, ter tido uma vida incrivelmente difícil. Nada daquilo é verdade, mas o livro não só é publicado como, para seu espanto, é um sucesso gigantesco.

Há uns tempos vi uma escritora autista norte-americana que escreveu um livro sobre a sua condição dizer que tinha muita dificuldade em conseguir publicar ficção. Porque o que os editores queriam dela eram mais livros sobre o autismo. Ou seja, por um lado, queremos histórias diversas (e ainda bem!), mas, por outro, estamos a reduzir os escritores a essas histórias.

Além destes temas, o livro também aborda muito o mercado editorial norte-americano:

No entanto, entramos na escrita profissional e, de repente, escrever é uma questão de invejas profissionais, orçamentos de marketing obscuros, e adiantamentos monetários que não se comparam com os dos nossos colegas. Os editores chegam e mexem nas nossas palavras, na nossa visão, e o marketing e a publicidade fazem-nos destilar centenas de páginas de reflexões cuidadosas e diferenciadas em pontos de discussão engraçados do tamanho de um tuíte. Os leitores instilam as suas próprias expectativas, não só na história, mas também na nossa orientação política, na nossa filosofia e na nossa opinião sobre todas as coisas éticas. Nós, e não a nossa escrita, tornamo-nos o produto.

Enfim, gostei muito deste livro e recomendo se estes temas do mercado editorial vos interessarem. Entretanto, fiquei curiosa para ler «Babel» da mesma autora.