![]() |
| Fotografia da minha autoria |
«Um mundo aparentemente normal»
A Feira do Livro é o meu passaporte para realidades distintas, porque procuro acolher obras que não seriam uma seleção imediata. Assim, usufruindo de promoções imperdíveis, consigo adquirir aqueles títulos que figuram há mais tempo na lista de desejos. E foi a deambular pelos Jardins do Palácio de Cristal que tomei a decisão de arriscar em Haruki Murakami, regressando a casa com a sua inconfundível trilogia.
Neste departamento, sinto sempre necessidade de, primeiro, investir em todos os volumes que compõem a coleção, porque deixa-me mais confortável saber que posso avançar na leitura quase sem pausas. Por outro lado, reconheço o risco implícito. Ainda assim, aventuro-me sem grandes hesitações [só não o fiz com a tetralogia de Elena Ferrante e com Outlander]. Por isso, comprei 1Q84, mas demorei, praticamente, um ano a priorizar os seus três exemplares. De peito aberto, fui acalentando a predisposição certa para entrar num mundo fora da caixa.
A escrita do autor alterna entre um traço surreal e fantástico, apresentando apontamentos com um toque de poesia. Além disso, por explorar uma energia mais estranha, requer que embarquemos nesta viagem sem colocar em causa a veracidade dos factos. Porque só assim a experiência se revelará admirável. Mágica. E talvez tenha sido por esse motivo que a narrativa me marcou tanto. 1Q84 foi mesmo um pedaço de luz a invadir a minha estante e a ficar hospedado no meu coração.
1Q84 VOLUME 1

A narrativa divide-se em dois pontos de vista: o de Tengo e o de Aomame. E é simples compreender que há aspetos a uni-los, embora, neste primeiro volume, ainda não seja possível identificá-los, porque a atmosfera dos acontecimentos deixa-nos no limbo. Em simultâneo, há outra dúvida a inquietar-nos: será que ambas as personagens se encontram no mesmo mundo? Isto porque existem vários pormenores que nos direcionam para análises antagónicas. Com uma certa dose de insanidade e imprevisibilidade, as reflexões intrapessoais são uma das características mais fascinantes desta obra, até porque nos permitem sentir o desnorte e as angustias dos protagonistas. O volume 1, de 1Q84, mostra-nos uma distorção da realidade, envolvendo-nos em questões políticas e religiosas, ao mesmo tempo que explora dilemas morais e nos alerta para situações de violência, abuso e desigualdade.
«- Se for possível amar alguém apaixonadamente,
mesmo que só uma pessoa, então a vida tem salvação»
1Q84 VOLUME 2

A realidade é só uma, porém, as aparências iludem-nos. Por isso, ao aceitarmos as regras deste jogo, permitimo-nos entrar num mundo original, que nos desarruma por dentro. E é assim que vamos deambulando por vários cenários surpreendentes, que deixam sempre tantas questões em aberto. Neste volume 2, voltei a ser conquistada pela perturbante história de um amor adiado, porque a escrita de Murakami tem o dom de nos inebriar e, por consequência, de nos transportar por um caminho nada evidente. As camadas sucedem-se, despertando um estado de curiosidade constante. Além disso, a Lua assume um simbolismo importante, verificamos que há um sentimento de culpa gritante e que as reviravoltas tornam o enredo ainda mais complexo e fascinante. Recheado de escolhas difíceis e reencontros que não seriam possíveis em circunstâncias ditas normais, as perguntas que transitam do primeiro livro começam a ser respondidas aos poucos.
«- Por outro lado, partilhámos algo, algo importante, que não poderíamos ter
partilhado com mais ninguém, algo que nunca poderíamos ter tido por outra via»
1Q84 VOLUME 3

O último volume desta trilogia é ainda mais misterioso, surreal e envolvente. Não só pelos acontecimentos com que nos vai confrontando, mas também pelo facto de ser acrescentada uma nova personagem, com uma aura bastante sombria, o que torna a dinâmica distinta e com outro nível de interesse. Sendo percetível que o perigo está sempre à espreita, esta obra também coloca uma bandeira na solidão e na vulnerabilidade de nos entregarmos aos outros. Embora consigamos encontrar várias respostas para os nossos dilemas narrativos, continuamos a formular perguntas. E eu senti-me numa procura constante, criando possíveis desfechos. Porém, naturalmente, mantive-me longe dos passos imaginados pelo autor. No final, fechei o livro a desejar conhecer o depois - sinto que o pede. Apesar de tudo, acredito que Murakami nos permite sonhar com o futuro. E isso é espetacular.
«Tenho de procurar um lugar onde consiga ver a Lua»
// Disponibilidade //
Wook
Bertrand
Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada pelo apoio ♥
