Esta é uma das mais conhecidas obras de Gil Vicente e uma das que é analisada ao longo do 9º ano dos nossos alunos. O "Auto da Barca do Inferno" (1517) faz parte da Trilogia das Barcas - onde figuram também o "Auto da Barca do Purgatório" (1518) e o "Auto da Barca da Glória" (1519). Gil Vicente, publica esta Trilogia numa época em a Expansão marítima traz novos conhecimentos.
Gil Vicente "escreve a sua obra dramática na transição da Idade Média para o Renascimento. Por esse motivo, as suas peças
conservam ainda marcas da mentalidade e da arte medievais, mas, nelas, encontram-se já traços renascentistas".
Fazendo um resumo muito breve, este texto dramático decorre num cais onde estão duas barcas à espera dos seus passageiros. Pelo cais vão passando várias figuras (um Fidalgo, um Onzeneiro, um Parvo, um Sapateiro, um Frade, uma Alcoviteira, um Corregedor, um Procurador, um Enforcado e quatro Cavaleiros) que tendo acabado de morrer têm de embarcar na barca que os levará ao seu destino de acordo com a vida que levaram. Apenas Joane, o parvo, e os quatro cavaleiros, têm como destino o Paraíso. O Judeu não tem lugar em nenhuma, acabando por ir "à toa", ou seja, vai dentro de água, agarrado à barca por uma corda sendo "rebocado" pela Barca do Diabo, por não se querer separar do seu bode. Além da moralidade, a obra satiriza também o juízo final do catolicismo, fazendo referência por diversas vezes à antítese entre o que defendem e o que fazem.
Cada personagem possui uma simbologia associada à falsidade, ambição, corrupção, avareza, mentira, hipocrisia, entre outras "qualidades" que são representadas pelos objetos que transportam consigo, mas também pela descrição que é feita dos seus pecados. "A construção das personagens foi, igualmente, melhorando e estas foram
ganhando dimensão psicológica e realismo." A personagens-tipo, "são figuras que representam um grupo social, ou socioprofissional ou, ainda, étnico, como os judeus", através das quais se resumem e "apresentam as caraterísticas típicas desse grupo".
Por exemplo, o Fidalgo, (Dº Anrique) que chega acompanhado de um Pajem, representa uma parte da nobreza. O Fidalgo através da sua postura e dos objetos que o acompanham, começa logo por se dar a conhecer como um tirano que teve uma vida voltada para o luxo e, por isso, não tem lugar na Barca do Anjo. Do lado oposto, o grupo composto pelos Quatro Cavaleiros, representa todos aqueles que participaram nas Cruzadas, defendendo a religião e as leis que a definiam. É por esse motivo que estes Cavaleiros vão diretamente para a Barca do Anjo, uma vez que sabiam que eram dignos de ir para o Paraíso por terem dado a "vida" lutando por Cristo contra os Muçulmanos, no norte da África e, sendo portanto, absolvidos dos pecados que cometeram. Nesta "peça, o Sapateiro, o Procurador e o Frade correspondem ao grupo dos profissionais liberais, dos funcionários da justiça e do clero regular, respetivamente."
O Anjo e o Diabo são personagens alegóricas que representam a balança do Bem e do Mal, o Paraíso e o Inferno.
O Auto não tem uma estrutura definida, não estando dividido em atos ou cenas, por isso para facilitar a sua leitura divide-se o auto em cenas à maneira clássica, de cada vez que entra uma nova personagem. Usando além da alegoria, a sátira social, Gil Vicente vai, a cada personagem que entra em cena, caraterizando a sociedade do século XVI. "A sátira social é exercida com um intuito reformador. Significa isto que a crítica é feita
com o propósito edificante e didático de corrigir os comportamentos, denunciando-os,
ridicularizando-os e convidando o público à reflexão."
"Com o intuito satírico, Gil Vicente irá recorrer ao cómico e, através do ridículo exposto
e do riso despertado, chamar a atenção para determinados defeitos das personagens."
Ao longo do auto aparecem três tipos de cómico: o de caráter, o de situação e o de linguagem. O cómico de caráter é aquele que é demonstrado pela personalidade, que podemos observar por exemplo através do modo como a personagem surge em cena, como "esta está vestida ou os elementos que a acompanham: por exemplo,
o Frade, da mesma peça, que surge em cena acompanhado de uma moça, com um
escudo, um capacete e uma espada na mão" ou, no caso do Parvo, que devido à sua pobreza de espírito não mede aquilo que diz e por isso não pode ser responsabilizado pelos seus erros. Como cómico de situação temos vários exemplos. Um deles é aquele que Gil Vicente cria entre o Diabo e o Fidalgo, em que é usado um tom de gozo pelo Diabo e que acaba por ferir propositadamente o orgulho do Fidalgo. Por fim, o cómico de linguagem é aquele que é proferido pelas falas das personagens, em que podemos encontrar como exemplo as expressões usadas pelo Diabo. De facto, é através da sua linguagem zombeteira e irónica que o Diabo expõe os pecados, vícios e fraquezas das personagens.
Penso que mais do que compreenderem a gramática, a síntase ou a estrutura da obra, seria importante que os alunos fossem capazes de a relacionar com a época em que foi escrita. Compreender esta relação, tornaria a obra muito mais real e a sua análise poderia trazer um objetivo mais concreto. Na minha opinião, deveria ser reenquadrada na matéria do 8º ano, em simultâneo com o estudo do Renascimento, da Reforma e da Contra Reforma, pois permitiria explorar em quadrantes diferentes uma mesma época histórica.
Convém lembrar que Portugal esteve na obscuridade da Idade Média, até ao início da Expansão Marítima, em que a descoberta de "novas terras e de outros povos tem implicações no progresso do conhecimento e na abertura do espírito humano." Esta expansão marítima "determina alterações no sistema económico nacional" uma vez que permitiu abrir "o mercado ultramarino à iniciativa privada". Esta "medida beneficiou a burguesia mercantil e deu dinamismo à economia". Enquanto isso, noutras zonas da Europa, o Renascimento é muito mais visivel do que em Portugal e corresponde não apenas a uma mudança cultural e artística, mas também no plano religioso, "este período fica marcado pelas cisões no interior da Cristandade", no qual começam a ser criticados e postos em causa aqueles que eram os "princípios e dogmas da doutrina, bem como os comportamentos e a política da instituição eclesiástica". Este movimento de ruptura, conhecido por "Reforma, conduz à criação das correntes religiosas protestantesde Lutero, Calvino e Henrique VIII.
Não nos podemos esquecer que nesta altura, a Ciência começa a ganhar terreno! "A ciência liberta-se do domínio da doutrina cristã e do saber escolástico. Munindo-se
de um método científico, passa a assentar na experimentação e no espírito crítico
e a desafiar os dogmas e as verdades da Igreja, dando importância ao saber empírico."
Também no que se refere ao nível social, ocorrem mudanças importantes. A economia "agrária feudal é substituída por uma sociedade mercantil, que privilegia as
trocas comerciais" e em que a força da economia passa "a assentar no comércio e na indústria".
A burguesia cresce e "consolida-se definitivamente como classe, ganha
importância social e poder político, substituindo a nobreza feudal como grupo dominante." Ao mesmo tempo, dando-se o "enfraquecimento da nobreza, a influência social e política do clero diminui."
Fontes:
https://www.todamateria.com.br/auto-da-barca-do-inferno/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Quatro_Cavaleiros