Acervo pessoal Metáfora oportuna, a saga acompanha o personagem Dédalo, devoto da ciência, que travará batalhas com império obscurecido pelo misticismo. O lançamento é amanhã, 01 André Cáceres*, Especial para Fina Números surgiam no papel; confrontavam-se usando sinais de operações matemáticas como ferramentas em encarniçadas batalhas; travestiam-se de letras; ocultavam-se sob as trincheiras das incógnitas; fugiam para o inconsciente abstrato das frações apenas para surgirem como uma fênix renascida dos cálculos sob a película de um parêntese e arrombavam portas forçando a entrada nos colchetes que, como fortalezas medievais, resistiam aos avanços dos guerreiros numéricos. Os algarismos se elevavam à potência de uma catapulta para romper as armaduras das raízes quadradas de seus inimigos, duelavam montados em fórmulas e sobrevoavam o front inimigo lançando bombas de logaritmos contra seus bastiões. Generais traçavam funções como estratégias para flanquear o exército numérico rival, e assim as análises combinatórias permitiam permutações, tentativas e erros entre os soldados atiçados pela ponta esférica da caneta, que traçava gráficos informando a quantidade de mortos e feridos na guerra. Por meio de suas estatísticas, Dédalo já havia acertado algumas previsões irrelevantes, como o resultado de um campeonato de hoverbol, o anúncio de um casamento entre dois membros de famílias nobres em planetas distantes e o cardápio do dia no restaurante da Universidade. Dessa vez, no entanto, era diferente. Ao estudar os rumos da política imperial, surgiu uma previsão desconcertante. Ele revisou os números que aca-bara de colocar no papel como se verificasse uma sentença de execução sumária e, a princípio, não quis crer no resultado: o Imperador Nimrod II seria alvo de um atentado.Dédalo sentiu um misto de medo e excitação. O que aconteceria se a notícia se espalhasse? Isso mudaria os resultados, certamente. As estatísticas da cliodinâmica só funcionam quando as pessoas submetidas a elas não têm consciência de suas previsões. O livro do futuro não pode ser lido jamais. Ele reativou a lente e passou os cálculos para sua memória eletrônica. Tinha de retornar à Universidade para relatar a descoberta a Navutan. O véu da noite já começava a cair − não porque o sol ameaçava se pôr, é claro. Na verdade, sua sombra não crescera um centímetro sequer, apenas a luz enfraquecera, isso porque a superfície de Agro IV sob a redoma era mantida em iluminação artificial. O eterno dia era mascarado pelas placas de acrílico que se tornavam gradativamente opacas, escurecendo a colônia e fornecendo o ciclo circadiano necessário para o cultivo das plantas, essencial para a produção agrícola. No caminho de volta, um odor putrefato lhe atingiu as narinas em cheio. Vinha do chão, onde um mendigo prostrado em farrapos respirava com dificuldade, insuflando a barriga em ritmo irregular. Dédalo decidiu enviar-lhe uma esmola. Sua lente exibiu o valor que possuía em créditos imperiais e transferiu alguns centavos à lente do pobre diabo. Ao virar as costas, porém, percebeu que o valor havia sido devolvido e que um respingo viscoso umedecia o flanco de sua túnica. − Seu bruxo cientista! Não vou aceitar dinheiro de você. O sujeito gesticulou acintosamente com os braços prateados cobertos de tatuagens eletrônicas. Dédalo suspirou, esporeou Pégaso e prosseguiu em silêncio. Aos poucos a visão do ambiente infértil no exterior da redoma dava lugar à de um vilarejo habitável, porém, para ele, igualmente hostil. Ao longe, uma torre de marfim se erguia, lançando sua sombra sobre os campos arados. Dédalo passou pelos portões milenares e adentrou os domínios da torre da Universidade de Agro IV, refúgio dos últimos devotos da ciência, uma religião quase extinta. *É jornalista e escritor. Co-autor de “Corações de Asfalto” (2018) e escreve sobre literatura no jornal O Estado de S. Paulo Nebulosa 334 páginas ano da edição 2021 André Cáceres editora Patuá r$ 45,00