
“Nem Todas as Árvores Morrem de Pé” -Luísa Sobral, 2025
No prefácio deste livro, Luísa Sobral revela-nos ser uma escutadora, uma boa ouvinte, que aproveita muito do material de escuta ocasional para as suas criações enquanto autora de canções. Neste caso, para a escrita de “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé” o seu primeiro romance. A partir duma “história incrível” lida num jornal de Vila Real, que uma amiga lhe enviou através de uma mensagem de whatsapp, aquela história, não só deu azo a uma canção que ela escreveu logo naquela noite, como lhe ficou a matutar e deu origem a este “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé”. Confesso que o Prólogo, que li logo que comprei o livro, é avassalador, muito visual e pus o livro de parte. Mas, na manhã seguinte, voltei a pegar-lhe e li-o em dois dias.
Para já o livro é visualmente muito bonito, para além da escrita poética e bem elaborada, na sua estrutura. Para quem quiser começar pela canção, basta usar o código QR logo a abrir o livro. Depois a capa e as ilustrações de plantas da autoria de Camila Beirão, as quais encimam todos os capítulos da narradora, apaixonada pela natureza e que organiza um herbário com todas as espécies que colhe nas suas saídas para o campo. A narrativa é fragmentária e a história da narradora e das restantes personagens vai-se desvendando aos poucos. Surgem capítulos com a letra em itálico sendo Emmi a narradora; as cartas de Markus para Emmi e os capítulos também em itálico da Tia da narradora. É da conjugação destes capítulos, interligados com pequenas frases/reflexões/pensamentos, que se constrói este belo livro, muito bem escrito. Detectei que a escolha dos títulos dos capítulos com o nome de plantas, seguido do nome científico e das características das plantas, nomeadamente o seu poder curativo, não foi casual, antes deliberada, o que torna o romance ainda mais interessante.
A história tem como ponto central o Muro de Berlim construído 2 anos antes de M. a narradora ter nascido. O Muro é o regime opressivo, o peso da suspeita e do medo, aquilo que dividiu famílias durante vinte e oito anos. Dividida entre o amor ao pai e o medo de não corresponder ao modelo que ele queria, sente-se rejeitada pela mãe sem ter para isso uma explicação. Tímida, sem vontade própria, foi Mavie a ama que a acompanhou até à entrada na escola e lhe incutiu o amor às plantas e aos seus efeitos curativos. O seu refúgio na natureza e a paixão em fazer um herbário eram os seus momentos de felicidade, ela que “só sabia falar com as plantas” (pág. 22) e para quem “o medo era a minha doença crónica” (pág. 61).
Em contraponto ao Muro, a liberdade protagonizada pelas plantas que a narradora colecciona, o herbário, Mavie, Klaus, Matteo, Francesca, Angelo e a concretização da fuga. Os traumas de infância são de tal forma profundos que é com indiferença que toma conhecimento da queda do Muro. Afinal, os pais são uma cicatriz que continua aberta e aquando do seu casamento com Matteo, “o passado não foi convidado” (pág. 110).
Emmi, a mãe da narradora, é uma personagem importante nesta história. Os seus sonhos de um amor feliz são brutalmente truncados com uma revelação inesperada. Deprimida, frustrada, encerra-se num mutismo que é ódio primeiro e depois indiferença e numa rejeição da filha recém-nascida que o marido atribui a uma “depressão” o que a ela pareceu “um bom diagnóstico para ser deixada em paz” (pág. 130). O ódio que sempre nutriu pela filha, a quem tratava por miúda, só deixou de existir quando soube que a filha tinha tido a coragem para fugir, a coragem que ela nunca tinha conseguido ter. Emmi sentia-se cobarde, sentia que estava morta há anos e quando teve conhecimento da fuga “naquele dia comecei a amar a miúda. A minha filha” (pág. 152).
Não revelo mais nada sobre a história, pois vale mesmo a pena ser descoberta. Quero ainda confessar que este livro me invocou duas amigas. Por causa da capa e das ilustrações botânicas do livro, a Manuela Rosa, professora de desenho e pintura, cujas estimulantes oficinas acompanho mensalmente na Quinta da Fidalga e a Irene Alves, amiga de um clube de leitura, que me ofereceu o “Herbarium” de Emily Dickinson com folhas e flores recolhidas nos campos de Amherst e com “poemas botânicos” traduzidos pela maravilhosa Ana Luísa Amaral.
14 de Fevereiro de 2026