Divagações: Mansfield Park

Como fã do trabalho de Jane Austen, eu sempre acredito que há poucas adaptações cinematográficas do trabalho da escritora. A maior parte é representada por séries para a televisão e há uma grande quantidade de filmes para televisão também. Ainda assim, sempre há algo para descobrir. Mansfield Park, por exemplo, é uma das obras com menos versões e eu demorei em conferir essa versão de 1999.

Aqui, a diretora e roteirista Patricia Rozema resolveu aproximar a personagem do público ao fazê-la olhar para a câmera e ‘escrever’ trechos de histórias que na verdade são da juventude da própria Jane Austen. O recurso é um pouco estranho, já que toda a ambientação parece bem fiel ao período original, mas é preciso observar que isso não é exatamente verdade. Muitos detalhes de cena, figurinos e sapatos foram reimaginados, fornecendo um aspecto mais moderno para essa versão da história.

Mansfield Park, dessa forma, traz uma releitura dos valores de Fanny Price. No livro, ela é uma jovem absolutamente correta para os valores da época e não se permitia muitas diversões. Aqui, ela se permite ter uma mente um pouco mais livre e sonhar, o que é uma grande vantagem para aproximar a personagem do público, principalmente depois que os espectadores estão mais acostumados com as olhadelas para a câmera.

Sua antagonista Mary Crawford, ao mesmo tempo, tem seu ‘bom senso’ de moça da cidade transformado em ‘falta de tato’ em quase a totalidade das cenas, o que torna o contraste mais evidente, mas enfraquece o relacionamento dela com Edmond. Para completar, achei que as melhores mudanças envolveram o irmão mais velho, Tom Bertram (James Purefoy), que se tornou um abolicionista ferrenho e pintor absolutamente inovador. É uma pena que ele seja um personagem menos relevante para o andar da história principal e, portanto, tenha menos tempo em cena.

Cheio de boas intenções, Mansfield Park é uma produção que cumpre seus propósitos e consegue trazer uma das obras menos conhecidas de Jane Austen de uma forma mais atraente para o público – com direito até a algumas cenas mais chocantes. Mesmo assim, não se trata de uma obra-prima nem de um filme particularmente inovador, mas de um longa-metragem perfeitamente razoável e adequado para aqueles dias de frio em que você está com vontade de assistir um bom romance debaixo das cobertas, com ou sem alguém ao seu lado.