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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de março de 2006)

       Machado de Assis, um gênio brasileiro, de Daniel Piza, sofreu um  bombardeio crítico, sobretudo devido a diversos erros de informação (José Bonifácio seria português e Deodoro seria o “Marechal de Ferro”, por exemplo).

Só que eles podem ser corrigidos numa nova edição. Mais difícil de reparar são os tolos resumos das obras, as análises atabalhoadas ou pífias, ou os trechos decididamente toscos, como este em que ele  comenta a célebre fórmula “Ao vencedor, as batatas”: “Mais uma vez, a frase é entendida como uma ironia de Machado no sentido de que o vencedor não tem nenhuma vantagem salvo a de ficar com umas batatas…” !!! Que coisa incrível, não ? Ainda não satisfeito, ele caracteriza, na página seguinte, a loucura de Rubião (protagonista de Quincas Borba) do seguinte modo: “Era um perdedor com batatas” !!!

Mais uma vez, a ficção ganhou longe da pesquisa biográfica, ficando com as batatas.  Há uma nova edição de um finíssimo –em todos os sentidos—romance de Haroldo Maranhão, lançado com pouco alarde em 1991: Memorial do fim. Nele, encontramos Machado de Assis agonizante. Seu leito foi descido para o andar térreo, a porta da casa no Cosme Velho está sempre aberta, pois muitos querem vê-lo antes do trespasse: são amigos que chegam, são anônimos que vêm prestar a última homenagem, é o Barão do Rio Branco que comparece e dá azo a um momento constrangedor, é uma romancista que espera extrair do moribundo um prefácio, é uma mulher que pode ter sido o derradeiro investimento afetivo do grande escritor, após a morte da esposa, Carolina (um dos piores momentos do livro de Piza é quando “analisa” o famoso soneto póstumo dedicado a ela).

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Aliás, a figura da mulher aparece com a mesma ambigüidade que torna fascinantes tantas figuras femininas de Machado. Memorial do fim já começa com uma delas, real ou imaginária, a inquietar um dos seus amigos fiéis, o crítico José Veríssimo, descrito numa carta (de Mário de Alencar, filho do autor de Iracema, e discípulo dedicado do Bruxo do Cosme Velho a ponto de querer manter o decoro e afugentar qualquer fantasma feminino que assombre a figura impecável, o lado Conselheiro Aires, do seu mestre) em termos deliciosos, se lembrarmos que Haroldo Maranhão é paraense:

Diz-se um roceiro, e o é, do Amazonas semibárbaro, onde a marca racial se traduz nas impetuosidades dos elementos, nas águas possuídas de cólera, que rompem florestas e terras bem fincadas, levando-as no arrasto da força primitiva. O íncola parece plácido, demonstra-o ser, mas lá um dia muda-se nas raivas dos répteis ensandecidos. Então, e sem nexo de causa e efeito, lacera pessoas mesmo as amigas; são gentes indomadas que copiam a natureza indomada. Subsistem de outra face, nele, laivos de extremada curiosidade, para não falar-se [sic] de bisbilhotice, e de leves toques de picardia acerca de autores e livros, tudo obra da herança roceira.”

Com picardia e desfaçatez, Maranhão nos dá o fim de Machado mimetizando a maneira como ele mostrou a comédia humana, fundamentada em máscaras e fingimentos. Mais assombrosa ainda é a perícia com a qual mimetizou sua linguagem e técnica romanesca, conversando com o leitor, investindo nas desconcertantes digressões, contrariando expectativas, fazendo o próprio processo de escrever ser desmascarado, chegando até à gratuidade de compor capítulos com trechos de romances machadianos, e talvez este seja o ponto menos feliz do livro.

Ele é tão “feliz” em todo o resto, em que a pena da galhofa ajuda a suportar a tinta da melancolia de um fim, que ainda por cima é obrigado a fazer-se de espetáculo incessantemente aberto ao público, que alguns capítulos de gosto duvidoso pouco importam.

Ao contrário do próprio Machado (o qual não foi imune ao universo social que descreveu tão lucidamente) e seu discípulo, Mário de Alencar, Haroldo Maranhão nunca faz questão de ser impecável e decoroso. No entanto, houve (houve mesmo? Ou será mais uma gaiatice, um teste para o leitor, tão provocado ao longo da narrativa?) um cochilo no seu posfácio: diz que no capítulo XVII reuniu trechos de Quincas Borba. Trata-se, no entanto, de Dom Casmurro.

NOTA- Há duas edições de Memorial do fim, uma pela Marco Zero; outra, pela Planeta.

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