(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de agosto de 2007)
Nome de grande repercussão no momento literário atual, apesar de sua morte prematura em 2003 (aos 50 anos), o chileno Roberto Bolaño tem sido vítima da pressa com que críticos e resenhadores procuram ou corresponder ao interesse suscitado por sua obra ou se apropriar dela para fins de mapeamento do panteão artístico contemporâneo, sempre necessariamente uma paisagem na neblina porque feita de apostas.
Temos afirmações fundadas na facilidade: seu ciclópico Detetives Selvagens já foi apresentado, e isso é repetido sem qualquer revisão, como o romance que Borges escreveria, só porque seus protagonistas são poetas e porque ele trata de uma das vanguardas poéticas dos anos 70; Francisco Goldman, em “The New York Review of Books”, afirma sobre A Pista de Gelo (“La pista de hielo”, 1993, tradução de Eduardo Brandão) que a história “envolve a descoberta de um misterioso corpo nu que se descobre pertencer a um poeta”. Na verdade, o cadáver encontrado nesse romance de estréia de Bolaño é o de uma velha mendiga numa cidade balneária da Catalunha. Ela vivera certo tempo no camping onde trabalha clandestinamente o poeta e narrador Gaspar Heredia (o qual fica bem vivinho ao longo da narrativa e tem uma biografia parecida com a do seu criador, que depois de viver muito tempo no México, liderando inclusive um movimento de vanguarda, tornou-se um imigrante ilegal na Espanha, sobrevivendo em subempregos) e acaba assassinada numa grande propriedade à Xanadu do Cidadão Kane na qual há uma pista de gelo construída por meio do desvio de verbas públicas por Enric Lesquelles (nada que diga respeito a nós brasileiros), assessor da prefeita da cidade e um dos três narradores (o outro é Remo Morán, dono do camping que emprega o poeta), para sua amante, Nuria, uma patinadora que fora cortada da seleção e que, tentando uma volta triunfal, precisa de um lugar para treinar (ela também é amante de Morán).
Se pensarmos mais a fundo na arquitetura simbólica de A Pista de Gelo, talvez o errôneo resumo da história feito por Francisco Goldman não seja tão absurdo, se o aceitarmos como imagem: temos a morte da poesia (e, portanto, a morte simbólica do poeta), questão ampliada de forma alucinante em Detetives Selvagens (uma obra-prima que continua me desafiando a comentá-la), que trata da obliteração de dois poetas ao longo das últimas décadas; um deles, aliás, a certa altura começa a escrever ficção, e esse ato parece mais uma capitulação, entre muitas, à realidade circundante (e por circundante entenda-se claustrofóbica). Em A Pista do Gelo parece que Remo Morán tem como fito domesticar Gaspar Heredia com o empreguinho que oferece a ele, selvagem colega de profissão (Morán também escreve). Assim como com relação à Arturo Belano e Ulises Lima, cultuadores incultos da sua arte, nunca se menciona um poema, um único verso de Heredia, que lhe dê substância como poeta. Ele apenas é apresentado como tal e cada vez mais se patenteia a insubstancialidade de sua “identidade” poética (diga-se de passagem o rasgo poético mais convincente do livro inteiro é a construção da pista por Enric).
No final, triunfa o mundo da intrigas, do enredo prosaico, que Bolaño parece tão bem mimetizar nesse romance, para depois parodiá-lo e triturá-lo em Detetives Selvagens e Noturno do Chile, seus outros livros publicados no Brasil.




