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| Fotografia da minha autoria |
«Respeita-me que eu respeitar-te-ei mais»
O meu vínculo ao Futebol começou cedo, sem que percebesse a altura exata, porque fiquei fascinada com a intensa parte emotiva e, mais tarde, com todas as aprendizagens que, enquanto desporto de equipa, potencia. Além disso, acho maravilhoso que desconstrua o nosso registo racional, que una tantas pessoas de diferentes contextos e que nos leve numa viagem intimista e singular, aproximando-nos mais da filosofia de um clube. Eu encontrei isso no Porto e sei que a minha alma azul e branca aconchega a minha história.
O elo às palavras lidas, pelo contrário, demorou a despertar, pelas mais variadas convicções, mas nunca por causa do Futebol. Aliás, nunca senti que tivesse de abdicar de uma paixão para fortalecer a outra. E, embora não seja ingénua, acredito que a cultura não tem de sair prejudicada, quando se colocam estes dois pólos na balança. Mas terá sido isso que aconteceu, quando se anunciou que a Feira do Livro de Lisboa encerraria mais cedo, no dia em que terminaria o campeonato?
MEDIDAS E INDIGNAÇÕES
Os horários dos jogos referentes à ultima jornada da Liga foram disponibilizados e a PSP, de modo a garantir «a segurança, a ordem pública e a integridade dos equipamentos públicos e privados em todo o perímetro de segurança afecto às eventuais comemorações», decretou que a Feira do Livro encerrasse às 17h, naquele que seria o primeiro sábado do evento.
Esta medida, naturalmente, teve implicações pouco abonatórias para editores, livreiros, autores e demais participantes, porque interferiu com a faturação (sobretudo, se pensarmos nos grupos mais pequenos) e com a logística pensada para aquele sábado, obrigando a solucionar outras alternativas. Se este processo já é complexo em iniciativas mais modestas, numa iniciativa desta magnitude torna-se ainda pior.
Fiquei solidária com a revolta dos envolvidos - em trabalho, em primeiro lugar, e em lazer -, porque, de facto, é inegável o prejuízo. Mesmo não visitando a Feira, também não gostaria de sentir a minha experiência condicionada e, inclusive, no discord do Livra-te, mencionei que achava tudo isto triste, porque a cultura é sempre posta de lado, porque é lamentável que as coisas não sejam organizadas de um modo mais consciente e porque, enquanto sociedade, não conseguimos evitar descontrolos num momento que deveria ser de festa. Depois, como ser pensante que sou, que adora livros e futebol, pus-me a debater uma série de questões.
LIVROS VS FUTEBOL
A minha essência portista já me permitiu sair muitas vezes para festejar campeonatos e, apesar de nunca me ter sentido insegura, sei que ambientes que reúnem milhares de pessoas estão sujeitos a confusão (quanto mais não seja pelo barulho, pela circulação condicionada), a ânimos exaltados, a comportamentos inconsequentes, porque há gente que não sabe estar (não, não me refiro ao brilhante programa da SIC). Isto não é, de todo, uma tentativa de normalizar desacatos, é só a constatação de um facto. Porque isto acontece na Invicta, em Lisboa, no outro lado do mundo; acontece em concertos, em festas populares, na Queima das Fitas. Aquilo que me parece crucial é perceber que medidas prévias foram tomadas para minimizar o caos.
É neste ponto que quero lançar algumas perguntas (retóricas, bem sei): Como é que definiram as datas? Não havia acesso ao calendário da Liga? Não houve cruzamento de dados? Sabendo que o campeonato terminaria mais tarde, por causa do Mundial, não teria sido melhor criar todos estes cenários e organizar uma agenda que não prejudicasse a Feira? Qual foi a proposta e a postura da APEL? Que critérios a motivaram?
Vi muitos leitores indignados com a Câmara de Lisboa, com a Liga, até com o próprio Benfica, que, neste contexto, só teve culpa de ganhar o campeonato, mas ninguém questiona a APEL, que deveria ser a principal interessada em proteger o seu evento cultural? Não sou apologista de apontar dedos, mas se é para encontrar culpados, então, não alimentemos dualidades de critérios e convoquemos as várias entidades envolvidas.
Depois, também acho importante perceber que não foi só a Feira que saiu prejudicada, houve, por exemplo, peças de teatro a serem canceladas, com todas as implicações negativas que essa decisão representa. Se é correto? Não é, mas o problema não se limita a uma das faces da moeda. Por isso, genuinamente, gostava de saber como é que tudo isto se processou noutras alturas em que houve a possibilidade de um campeonato ser ganho por um dos clubes de Lisboa. Ou isto foi um fenómeno novo?
Em tempo de pandemia, a Feira do Livro ocorreu na mesma e houve bastante adesão, portanto, talvez os portugueses se interessem um pouco pela cultura. Atenção, não venho aqui com falsos moralismos, porque também afirmei que se priorizou o desporto neste ponto, mas pela má gestão do calendário, levando a que um dos acontecimentos não funcionasse em pleno.
Posso estar a ser injusta, porque não sei até que ponto seria possível, mas querendo regressar a estas datas e sabendo que a competição termina em maio, não poderia ter existido uma comunicação aberta para evitar que coincidissem? Claro que estariam a trabalhar no campo das suposições, porque nada garantia, à partida, que o campeão seria o Benfica, mas continuo a acreditar que era preferível isso do que, em cima da hora, rever «155 eventos que se iriam realizar a partir das 17h».
A minha vida não foi afetada por esta situação, por isso, se calhar, vai parecer insensível da minha parte, mas entre fechar mais cedo ou tentar garantir a segurança de todos, não tenho dúvidas do lugar em que me coloco. Ademais, e sem precisar de tecer cenários de violência, seria impensável ter os dois eventos ao mesmo tempo só pela quantidade de pessoas que estariam nas zonas indicadas (e para propósitos distintos). Assim, em vez de demonizar o Futebol, vamos antes pensar em formas de compensar os visados.
OS ACÉFALOS VS OS CULTOS E UM PROLONGAMENTO OFICIAL
Um aspeto que me incomoda profundamente é a generalização e o perpetuar de estereótipos; é a ideia repetida em surdina a mostrar que os adeptos de futebol são uma cambada de arruaceiros e acéfalos e que quem lê é uma alma sábia e iluminada.
Hipocrisias à parte, sei que é uma realidade possível, mas também há muitos leitores ignorantes e mal intencionados e adeptos conscientes e apaziguadores. Portanto, cair nesta caracterização parece-me absurdo, porque não soluciona o problema. Sabem o que é que este género de ataques me faz lembrar? Quando procuramos diminuir uma pessoa para elevar a outra, quando apontamos as falhas de um produto para dizer que outro é espetacular. A que é que isso leva? Exato, a lado nenhum. Deste modo, se insultar os adeptos (e, já agora, as pessoas que não leem) é uma estratégia para mostrar que a cultura fica para trás, parece-me que só estamos a alimentar outro problema e a dar a entender que neste país só há espaço para uma das partes.
Acredito que aqueles que estão envolvidos nesta situação leiam e tenham sentido crítico, mas sabem o que é que eu retirei dos desenvolvimentos mais recentes? Que estavam só a tentar passar a batata quente ao elo mais vulnerável. Carlos Moedas propôs à APEL o prolongamento da Feira por mais dois dias. A APEL reconheceu a pertinência desta medida, mas tinha de perceber juntos dos seus parceiros se isso era viável. Considero que ambas as posturas foram compreensíveis, mas caímos num jogo um pouco desonesto, caímos numa troca de responsabilidades para ver quem ficava menos mal na figura, porque, caso não fosse possível ter dois dias extra de Feira, quem é que seria julgado? Não seria a Câmara, não seria a APEL, seriam só os rostos de quem, não tendo capacidade para suportar este acréscimo, não aproveitou a generosidade - pelos vistos, não é só a malta do futebol que tem pouca visão. A parte maravilhosa é que, de facto, chegaram a um consenso favorável e esses dois dias serão concretizados.
Foi a Sofia Costa Lima que me alertou para a partilha da Joana Rita Sousa, no Twitter, e faz-me todos o sentido citá-la, porque «quem quer ler e pensar pode sempre ir à Feira do Livro num outro dia e noutra hora». E mesmo que só pudessem ir no sábado em questão, não deixariam de ter outras oportunidades para ler, para debater, para alimentar uma mente aberta. Reforço o quanto lamento terem a experiência limitada, mas não me parece justo cair neste extremismo, porque seria igualmente afetada, caso os horários se mantivessem - e acrescentem a isso a Hora H -, as consequências é que seriam outras.
Como pessoa que lê e que adora futebol, tenho pena que esta questão se tenha desvirtuado e escalado para um circo mediático, porque o foco deixou de ser a cultura, para passar a ser uma gestão de egos.
Sejam a Feira. Vivam a Feira com o coração no sítio certo:
pelos livros, pela cultura, pelos autores, pelas pessoas.
