Fotografia da minha autoria

«Girassóis: mesmo sabendo que não há tempo de sobra, eles escolhem viver a versão mais bonita da vida»

O dia amanheceu em tons acinzentados, com nuvens a inspirar pouca confiança, uma vez que cobrem todo este quadro-céu de promessas chuviscadas e de nostalgia. Porém, cresci sempre com a certeza de que boda molhada é boda abençoada. E, curiosamente, em ambas as famílias, não houve uma única cerimónia a fugir a esta sina. E têm prosperado.

Sou pouco dada a superstições, mas o meu lado emocional deseja que seja um bom presságio - e eu acredito que não iremos quebrar a corrente. Porque há muitas pistas a corroborar a perceção que acalento da nossa relação. Além disso, tem-se proporcionado tudo de uma forma tão natural, que é impossível equacionar dois caminhos, duas verdades, dois futuros. A sintonia que nos abraça chega mesmo a comover-me. Por essa razão, sou tão convicta quando afirmo, de peito a transbordar de amor, que alcancei o topo da minha montanha. O Rodrigo é quase uma bênção. E eu não sei mesmo o que fiz para merecer tamanha sorte. Mas agradeço. Agradeço muito este estreitar de laços - e de vida - que nos colocou numa rota comum, sem termos percebido o momento exato em que nos entregamos sem hesitações. Não sei se acredito em coincidências. Mas o destino sabe sempre a estrada que deve seguir.

A preparação do nosso casamento tem sido bastante tranquila. Sem contratempos de maior. E com uma bagagem minimal, pois somos demasiado descomplicados para transformar este dia num aglomerado de nervos e inquietações adicionais. Para isso já bastam todos aqueles em que não somos capazes de colocar um travão, por não estarem ao nosso alcance. Naturalmente, também sonhei com a minha celebração de conto de fadas e com o meu vestido de princesa. No entanto, com o tempo e a maturidade a limar arestas, embora não prescindamos de certos pormenores, alteramos as nossas prioridades, porque entendemos que o mais importante é a pessoa que estará à nossa espera no altar e não tanto a decoração. Temos, portanto, tentado criar um ambiente intimista, que nos represente, mas sem desgastar toda a energia em infinitas responsabilidades. E tem sido mais especial assim.

O único detalhe que estabeleci como obrigatório foi o bouquet: um belo ramo de girassóis. Esta flor preserva uma pessoa especial, o meu avô, que já não me poderá ver a dar este passo tão importante. E transporta-me para a minha infância, tendo em conta que cresci entre os campos de girassóis que pertenciam ao meu coração de manteiga, como o apelidei carinhosamente, que tantas vezes foi o colo dos meus anseios, desgostos e traquinices. Perto da sua figura paternal, eu sentia que nada me derrubaria. E não havia melhor lugar no mundo do que ao seu lado no sofá. Era a sua menina, a luz dos seus olhos verdes, mesmo quando o arreliava com o meu feitio ora explosivo, ora teimoso. Não houve qualquer falha que não me soubesse perdoar. E ensinou-me tudo aquilo que eu precisava de saber sobre esta coisa de ser por e pelos outros. Eu observava-lhe os traços. E nunca senti ninguém tão puro no trato. Porque ele cuidava das pessoas como cuidava dos seus girassóis: com toda a estima que lhe cabia na alma.

Tudo o resto pode não ser exequível, mas, quando entrar na igreja, o avó Zé caminhará à minha frente, como sempre fez, orientando-me os passos. Porque onde há girassóis, há um pedaço vivo da sua memória. E desta estrela que nunca parou de me guiar.