Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Um homem nu, deitado sobre a cama, respira lentamente, insone. O rosto levemente deformado pelo travesseiro traz uma expressão séria, invisível à mulher deitada ao seu lado, que, entorpecida pelo sono, murmura alguma palavra de afeto. A janela aberta deixa adentrar no pequeno quarto um pouco de alívio para o calor e para a alma atormentada do homem. Ele não está tranquilo. Assim como não estava ontem e não estará amanhã. O cobertor, antes ignorado, é agora utilizado, mais como companhia, num abraço informe e inesperado, que como proteção contra o frio.

O dia havia sido perfeito. Conversara com algumas pessoas. Sorrira. Fizera um bom serviço na fábrica. O sexo com a esposa havia sido bom como poucas vezes. Ela dormiria feliz e orgulhosa de seu bom marido.

Havia, contudo, um problema. O homem tinha uma voz dentro da sua cabeça que insistia em avaliar cada dia não do seu distorcido ponto de vista, mas da perspectiva impessoal da realidade: e o dia não havia sido perfeito. Ele mentira, enganara, fingira, traíra. Seu peito doía e ele não sabia dizer se era por ter mentido, ou porque seu arrependimento não era sincero, ou ainda por não ter força para pensar nisso tudo sem se deixar interromper por devaneios. Só se lamentava.

Ao reencontrar, ainda no início do dia, no saguão da fábrica, sua antiga namorada, sabia desde o começo os rumos daqueles sorrisos e beijos úmidos demais para quem só estava ajudando duas empresas a fechar um negócio. O almoço, as recordações, a irrefreabilidade da carne, o motel, a dor no peito, o gozo, as promessas de reencontros, as lamentações em frente ao espelho, a vontade de chorar e a ausência de lágrimas, a dor, a promessa de que jamais faria nada parecido com aquilo doravante.

Ele olha para o seu dia, opróbrio. Lembra do dia anterior, de dois dias atrás. Não consegue lembrar de ter algum dia deitado, feito a sua oração e de ter sido plenamente sincero ao dizer: “Louvo-Te por esse meu dia”. Eram palavras mecânicas, repetidas há vários anos, irrefletidas, vazias. Mas que incomodavam. Nalgum dia mais cínico, ele formulara um pensamento do qual se orgulhara, para, em seguida, se envergonhar: Ele era um homem com cinco minutos de consciência por dia. Eram os cinco minutos mais inúteis possíveis, na verdade, já que antecediam o sono e não lhe permitiriam nenhuma ação. Deitado, ele prometia ser diferente. Como um relógio, a contagem dos seus erros e angústias recomeçava tão logo acordava. Era um homem novo em folha para fazer o que bem entendia e, ao anoitecer, renovar as promessas.

O menino se enrola no cobertor. É frio nesta época do ano. Fecha os olhos, e vê a prova. Abre os olhos, a parede, de pintura gasta e suja. Vira a cabeça. O telhado. Não lhe diz nada, mas ele quisera que algo ali estivesse escrito. Um manual. Regras. Eu desejo, do fundo do meu coração, ser bom. Sou fraco. Como ser forte? Queria ter um livro que ensinasse. Uma carta Sua escrita para mim, que me transformasse.

Ele crê que Deus o ouve, e um misto de alívio e vergonha deixa seu semblante mais relaxado, porém ruborizado. Seus pais lhe ensinaram a rezar à noite, agradecendo pelo dia e pedindo perdão pelos erros que, decerto, cometeria.

O menino olha a prova. Uma equação matemática tenta comprometer o seu futuro. Descobrir um ângulo que ele nem sabia que estava ali, ingrato dever. Pensa. Olha a prova e vê um idioma desconhecido, do qual apenas conhece algumas letras, nenhuma palavra. Tentar decifrar é irrelevante. Deveria ter estudado, pensa. Olha para frente, a professora e seus óculos, onisciente. Não parece. Pensa. Deveria ter estudado. Puxa um papel, preparado há dois dias. Letras miúdas, meticulosamente acomodadas para que todo o assunto ali fosse comportado. Uma busca rápida. A fórmula de que precisa. Não estudei, deveria ter estudado.

Termina a prova rapidamente, mas não a entrega. Deixa-se envolver pela culpa, olha a prova e sua vontade é rasgá-la, destruí-la, confessar sua fraqueza à professora. Após alguns minutos, levanta-se, toma seu material, dirige-se à mesa, deposita sua prova e, diligente, despede-se da professora. Será um nove doloroso, do qual se envergonhará, pensa. Um nove.

O velho respira. Difícil, deitado assim. Demorado. O ar entra arrastado em seus pulmões, como se estivessem fazendo um favor a um vizinho inoportuno. O ar é pouco. O peito se cansa. Mas é mesmo o mundo que já está cansado dele. Só pode olhar o teto. Quase não vê, no escuro, mas sabe que é branco e limpo. E que ali está só. Uma enfermeira ao alcance do pressionar de um botão. O dia havia sido longo. Uma visita de quinze minutos, às dez da manhã preencheram todo o seu dia. Quisera ter sono. Quisera poder dormir. Quisera poder acordar e não ser acometido por estes pensamentos. Mas esse tempo se fora, e, no ocaso de sua vida, ele era só arrependimento. Brincadeira estranha, fez consigo, certo dia. Esses dias, repletos de reflexões, eram os cinco minutos de consciência da sua vida.

Sua filha a visitara pela manhã. Não se ocupara deste evento apenas aquele dia, após ficar só. Desde que fora informado, dois dias antes, que a reencontraria, outra coisa não fez senão elaborar discursos sobre perdão e arrependimento. Mais: sobre reconciliação. Queria paz, e julgara ter as palavras na ponta da língua. Programara tudo: como ela entraria em seu apartamento com os olho vermelhos, porém simulando um sorriso. Como sua mão fina tremeria ao tocar as mãos enrugadas e quase inertes do seu pai. Como ele diria que a amava e que sentia muito por tudo. Chorariam. As lágrimas da sua filha, caindo sobre seu rosto velho saciariam a sede que sua alma sentia há tantos anos. Desde que ele existia, ou desde que o mundo existia.

A enfermeira sai, com alguma palavra mentirosa sobre recuperação. Muitos minutos se passam e sua filha não chega. Terá ele a chance de executar seu teatro da redenção?

Ajeita seu cobertor. Não quer que sua filha veja nenhuma parte inconveniente de seu corpo nu e débil. Murmura os verbos mais permanentemente etéreos de toda a sua vida: Perdoa. Arrependo.  Desculpe. Amo.

Repete-os, fortalecendo uma intenção interior. Nesta manhã eles sairão, pensa.

Apenas pensa. Sua filha chega e interrompe-o. Desconcerta-se. Ela entra fria e inescrutável. Senta-se. Levanta-se. Parece sem jeito também. Olha o pai de longe. Medo? Aproxima-se, a voz indefinível, perguntando se está se sentindo bem. A resposta vem no mesmo nível, impessoal, distante, como se falasse do clima ou da economia de algum país sem importância no cenário mundial.

Os minutos se prolongam. Há uma evidente espera nos olhos de sua filha. Ele, grávido de desculpas, perdões e arrependimentos, grávido de amor, se retrai. Nem consegue chorar. Se esconde nos exames médicos descritos com miríades de detalhes, no valor absurdo da diária do hospital, na morte de um vizinho de apartamento que padecia do mesmo mal.

Lembra-se de cada segundo, de cada movimento da sua filha. Cada movimento uma oportunidade em potencial, o gatilho para uma enxurrada de sentimentos, para a paz. Com dificuldade, olha para o soro, ao seu lado, acima da sua cabeça. As gotas vêm lentamente, e ele se imagina morto ao final daquela líquida ampulheta. Morreria ele ou finalmente morreria sua consciência? O ardor no peito aumenta. A dor abdominal volta. Mas queria medicar-se mesmo era para livrar-se desses pensamentos. Finalmente tem coragem e faz a si mesmo a pergunta cuja resposta ele sabe desde a infância. E a resposta é não. Não mudaria nada. Continuaria calado, ao lado da sua filha, mesmo sabendo que morreria angustiado. E a deixaria sofrendo. As palavras de acusação, que tanto marcaram-na, ao longo dos últimos dez anos, não as engoliria. E não deixaria de trair sua esposa, nem de aceitar aqueles subornos. E subitamente, uma lembrança. Um riso que lhe causa dor. Também não estudaria para aquela prova, nem para as outras tantas antes e depois. Olha novamente para o soro. Acabou. Acabou a sua consciência, mas não se sente aliviado. Os olhos fecham. Dorme. E não acordará.